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Edição | 17 de Dezembro de 2021

Com frequência vem‑me a agradável lembrança das primeiras semanas em que frequentei a escola primária. Nunca mais surgiu a ocasião para cumprimentar e agradecer às “minha Senhora”, como chamávamos a professora destacada para a garotada, no ensino das primeiras letras e dos primeiros números e algumas regras de cidadania e convívio em ocasiões nada fáceis. No grupo de meninas e meninos daquela primeira classe nem sempre tínhamos a professora a acompanhar‑nos, tinha outras “classes”: eram quatro no mesmo horário escolar para uma só professora. É claro que, naqueles entretempos da ausência e presença da “senhora” havia lugar para a brincadeira, as asneiras da idade… o estudo, os ditados, a memorização do significado das “palavras difíceis”, as cópias entre duas linhas, a localização dos rios, das serras e das linhas férreas no mapa da parede… 

Numa daquelas circunstâncias de aprendizagem, calhou ao nosso grupo a leitura, quero dizer ir juntando as letras, até chegar à leitura de cada palavra. A “senhora” já próximo do Natal, colocou‑nos nas mãos algumas revistas… desenhos, pinturas, textos que me pareciam mais longos que uma linha de comboio que figurava no mapa dos da quarta classe. Como se fosse um passatempo, o exercício consistia em começar a ler. Recordo com saudade que me desenrasquei razoavelmente na junção das letras e seguinte descoberta das palavras. Juntar as letras, descobrir as palavras, perceber que cada uma tinha o seu lugar naquela história, para eu começar a entender o mundo…

Muitos anos mais tarde, em 2020, início de pandemia, ao serão com minha mãe, em vez de nos determos frente à televisão com os números assustadores de infectados e de óbitos do COVID a provocarem medo e angústia, deleitávamo‑nos, ela e eu, na leitura de contos, fábulas, dois ou três em cada serão, alguns lia ela, outros lia eu, e depois ríamos, comentávamos, voltávamos à página para sorver ainda mais a história.

Neste tempo tão próximo do Natal, noites mais longas, lá estão os quatro livros de contos tradicionais portugueses à espera de nos darem momentos agradáveis, certamente uma compreensão mais alargada das personagens, figuras, e do conteúdo da narração, do mundo. Serões verdadeiramente bem passados, com companhia sem igual, misturando maravilhosamente o passado, o presente e o futuro, dando‑lhe forma, altura, largura, profundidade, tornando‑nos pequenos e senhores do mundo, dentro e fora, conhecidos e anónimos, o bem vencendo o mal, os pobres alcançando dignidade, os humildes sentando‑se no trono da realeza.

Então, boa leitura, bons contos… Feliz Natal!

Rui Marto

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