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António Catarino Pereira, o engenheiro benemérito

21-11-2019
Foi o primeiro cidadão de Fátima a tirar uma licenciatura. Fez a instrução primária na escola da Moita Redonda e prosseguiu os estudos no Liceu Rodrigues Lobo, em Leiria, e nas universidades de Coimbra e do Porto, onde se formou em Engenharia Civil. Há quem diga que foi o melhor aluno a Matemática que passou pela universidade de Coimbra. A sua média era de 19,8 valores. As "dificuldades" que passou a ajudar a mãe atrás do balcão da extinta loja Catarino desenvolveram-lhe o cérebro "de tal maneira que com cinco anos já fazia contas de multiplicar, de somar e de dividir". Após concluir a licenciatura, em 1957, rumou até Lisboa, onde prestou serviços de consultadoria e fiscalização para o Ministério das Obras Públicas e para o Fundo de Fomento de Habitação. Também colaborou com inúmeras empresas de construção civil, a nível nacional e internacional. Foi comissário da Expo 98, entre outras funções. Mas nunca esqueceu as suas raízes. No início da sua carreira, visitava com frequência a família. E, sempre que vinha à terra e as pessoas viam o seu Alfa Romeu vermelho estacionado à porta dos seus pais, faziam "bicha", para tratarem dos projectos das suas habitações e estabelecimentos. Nunca se recusou a ajudar os seus conterrâneos, mas procurava sempre que os projectos não ferissem a estética da cidade, para isso muitas vezes era necessário alguma diplomacia e negociação. "Conjugava os ajustes, para que os lotes saíssem com alguma disciplina", recorda o engenheiro, que é autor de inúmeros projectos em Fátima. Entre eles, os hotéis Aleluia, Três Pastorinhos e Pax. Além de Fátima, a sua obra está espalhada ou pouco por todo o país, nomeadamente na área da Habitação Social. Um tema que lhe é particularmente querido, tendo inclusivamente aprofundado os estudos nesta área na Escandinávia, ao abrigo de uma Bolsa de Estudo. Bom conversador e culto, criou, entre outras iniciativas, a tertúlia "Desculpa, mas é quarta-feira", para discutir com os amigos o estado do país e do mundo. As viagens são outra paixão. "Aquilo que sou devo-o muito, mas muito, àquilo que soube ler das viagens que fiz", confessa o engenheiro, que já visitou mais de 100 países. Foi dos primeiros portugueses a visitar a União Soviética. "Ainda no tempo da outra senhora. Aí apreciei o que é a liberdade", afirma. Humanista e benemérito, tem ajudado várias instituições do país e da freguesia, nomeadamente os bombeiros e a própria Junta de Freguesia. Está também a criar uma bolsa de estudo, destinada a apoiar estudantes carenciados. No dia em que foi agraciado com a Medalha de Ouro de Mérito Municipal, António Catarino Pereira, 88 anos, abriu-nos as portas da sua casa (que herdou dos seus pais), em Lombo d' Égua. Num ambiente muito acolhedor, rodeado de recordações e de obras de arte (é frequentador assíduo de leilões de arte), o engenheiro Catarino, como é mais conhecido, falou-nos do seu percurso de vida e dos sonhos que ainda gostaria de concretizar. Poucos dias depois de ter sido agraciado com esta distinção, recebeu também o crachá de ouro, pelo contributo que tem dado aos bombeiros voluntários de Fátima.

Ao entrarmos na casa do engenheiro Catarino deparámo-nos com uma imensidão de objectos, fotografias, obras de arte… 

São tudo recordações que me dizem alguma coisa. Nasci aqui nesta cama, foi a minha maternidade. Nasci em Novembro e, em Janeiro, a minha mãe abriu a loja [Catarino] lá em baixo [na Rua Francisco Marto]. Levou-me logo para lá.


Vem cá muitas vezes?
Nem por isso. Eu vivo em Lisboa, alterno os fins de semana entre Fátima e Nazaré.


Ainda assim, nunca esqueceu as suas raízes. Gosta de Fátima? 
Sim, é por isso que venho para cá.


Como é que olha para a cidade? 
Olho para a cidade com uma certa naturalidade, porque onde se junta muita gente, surgem sempre oportunistas, uns mais materialistas do que outros, e o espiritual desaparece um pouco. Ouvimos ainda hoje [20 de Junho, Dia do Município de Ourém] o presidente da Assembleia Municipal [João Moura] falar do aeródromo.


No seu entender, é uma infra-estrutura que faz falta à cidade?
Sim, faz falta. Nos tempos de hoje, além de dois mil quilómetros, não se justifica andar na estrada. Eu ainda fiz parte de uma comissão para activar um aeródromo aqui para Fátima, mas depois morreu tudo em águas de bacalhau.


O presidente da Assembleia Municipal defende que deve ficar situado em Tancos. Concorda? 
Eu sugeri, na altura, Monte Real.


Voltando a trás. No início da sua carreira fez muitos projectos aqui para Fátima. Acha que a cidade tem crescido de forma harmoniosa?
Quando olho para a Rotunda Sul fico horrorizado, aquele bloco que ali está encaixado [Edifício Parque dos Pastores] é uma coisa horrorosa. Não quer dizer que Fátima esteja toda assim, mas tem aqui coisas horrorosas, não por falta de conhecimento, mas devido a negociações parvas. Toda a vida é uma negociação, mas tem que haver respeito e tem que haver regras para que as coisas sejam feitas com critério. E há aqui coisas absolutamente indescritíveis.


Se pudesse projectar uma nova obra para a cidade, qual é que escolheria?
Por exemplo, um museu de cultura, onde fosse desafiado a pôr o meu património à disposição, uma vez que não tenho filhos, e que esse património pudesse ser visitado, pelo menos periodicamente gratuitamente, com visitas orientadas, porque a cultura só faz bem. Dá trabalho, mas faz bem.



A primeira pessoa de Fátima a ir para a universidade


Foi a primeira pessoa de Fátima a ir estudar para a universidade? 
Antigamente, as famílias tinham os filhos para ajudar os pais. Estudar era um luxo e era caro.


O engenheiro Catarino foi uma excepção… 
As dificuldades que eu passei a ajudar a minha mãe desenvolveram o meu cérebro de tal maneira que eu com cinco anos já fazia contas de multiplicar, de somar e de dividir. Ainda hoje, em reuniões de curso, dizem: "É pá, lá em Coimbra há quem diga que o gajo que passou lá melhor nas matemáticas foste tu." Por um lado, quando eu passei com distinção ali em Ourém, a minha mãe perguntava aos caixeiros viajantes o que é que o Toninho podia fazer, uns diziam "ele podia tirar o curso de comercial", outros diziam "ah não, ele tem arcabouço para muito mais, mande-o mas é para o liceu de Leiria".


E assim foi…
A minha mãe arranjou lá uma velhota, e eu vinha dia sim, dia não. Vinha de camioneta pelo Reguengo do Fétal, naquelas curvas todas, era a única camioneta de passageiros que havia aqui em Fátima. Na altura, as camionetas não eram a gasolina, nem a gasóleo, eram a carboneto, demorávamos duas horas a chegar cá a cima.


Depois de concluir o liceu, foi estudar para Coimbra…
Tive de ir para Coimbra porque Leiria não tinha 6.º e 7.º ano. Tive colegas extraordinários. Eu não era nada extraordinário. Era o melhor a Filosofia e Matemática, 19,8 valores. O resto, letras e tal, era medíocre. Eu fiz em Coimbra o 6.º e o 7.º ano do liceu, depois inscrevi-me na secção de Ciências, Matemáticas e Física, porque nas Letras era um nabo de todo tamanho, e fui subindo… Os professores gostavam de mim, até me convidaram para assistente, mas eu não fiquei, porque queria ajudar os meus pais.


Depois foi para o Porto…
Depois fui para o Porto, porque tinha um ambiente académico mais próximo de Coimbra. Éramos 90 e tal engenheiros civis. Alguns eram solteirões como eu, de maneira que eu formei um grupo jantareiro, para a gente se reunir. Funciona há 55 anos. Todas as primeiras quartas-feiras do mês. Chama-se "Desculpa, mas é quarta-feira", que é a expressão que se usa para a mulher não poder ir. Algumas mulheres ficavam duvidosas e eu até passava certidões da presença do marido.


Após concluir o curso, foi trabalhar para Lisboa…
Havia muita dificuldade em emprego, eu fui trabalhar para a tal direcção de urbanização (…), trabalhava (…) com o arquitecto que fez o primeiro projecto de urbanização de Fátima (…). Liguei-me muito cedo à Habitação Social, até tive uma Bolsa de Estudo na Escandinávia (…). Fiz projectos para o país todo.


E também aqui para Fátima?
Eu vinha cá de quinze em quinze dias, vinha ver as obras, a minha mãe, o meu pai… Os clientes formavam bicha, porque os projectos tinham de ser aprovados lá em Lisboa, onde eu trabalhava. Eu não metia cunhas, mas chateava os colegas para darem os pareceres sobre as coisas, de maneira que foi assim que eu fiz 80 e tal por cento das obras aqui em Fátima.


Houve algum projecto/obra que o tenha marcado mais?
O que me impressionou mais talvez tenham sido as inundações no concelho de Loures. Há uns anos houve umas inundações brutais e ficou imensa gente sem habitação. Eu fui chamado para ir ao local, nunca me esqueci daquilo que eu vi, aquela gente sem casa, sem nada, a gente a trabalhar com a água até aos joelhos (…). Dá um prazer enorme saber que a gente está a trabalhar para o bem, é o pagamento maior que a gente pode ter.


O que é que ainda lhe falta fazer? 
Há muito para fazer… Que divulguem as minhas coisas e que sugiram para eu fazer melhor.


"É preciso saber dar e ter sorte no dar"


Ao longo da sua vida também tem procurado ajudar instituições, associações, os que mais precisam… Gosta de dar e de ajudar os outros?
O dar não chega, é preciso saber dar e ter sorte no dar.

No seu caso, tem sabido. Por exemplo, tem ajudado os bombeiros, tem apoiado estudantes mais necessitados, doou um terreno à Junta de Freguesia para ser convertido num projecto cultural…

Vou fazendo aquilo que posso…

As viagens são outra paixão?


Aquilo que sou devo-o muito, mas muito, àquilo que soube ler das viagens que fiz. Fiz parte do primeiro grupo que visitou a União Soviética, no tempo da outra senhora, aí apreciei o que é a liberdade. A liberdade é uma coisa que é muito bonita, mas custa muito a adquirir.