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“Fátima devia ser mais valorizada”

21-01-2022
O 25º aniversário da elevação de Fátima a cidade foi o pretexto para esta entrevista com o presidente da Junta de Freguesia de Fátima. Humberto Silva partilha a sua visão sobre a cidade.

Notícias de Fátima (NF) - A Junta de Freguesia de Fátima apresentou recentemente o programa do 25º aniversário da elevação de Fátima a cidade. É o programa ideal ou o programa possível?

Humberto Silva (HS) - O programa está a ser elaborado há algum tempo. Se é o ideal? Nós, neste executivo, pautamos sempre por não estar satisfeitos com o que fazemos; queremos sempre mais.

 

NF - Quanto é que a Junta de Freguesia vai gastar nas comemorações?

HS - Já temos uma ideia e já entregámos o projecto ao executivo camarário. Esperamos que o Município esteja disponível para colaborar connosco, como sempre colaborou. E tenho a certeza de que não nos vai desiludir com a comparticipação, quer seja monetária, quer seja logística, porque também vamos precisar do apoio logístico do Município, para a realização de alguns eventos. Mas claro que o apoio monetário é o mais importante. Já temos uma ideia dos valores necessários, mas não vou revelá-los sem ter a resposta da Câmara. Também estou confiante de que as pessoas da nossa terra vão colaborar. Os fatimenses foram sempre resilientes e amigos de ajudar uma causa.

 

NF - Que expectativas tem em relação às comemorações?

HS - Estou entusiasmado e acredito que as pessoas vão aderir. São 25 anos de uma cidade que cresceu exponencialmente. Temos eventos para todos os públicos. Quisemos chegar a todas as idades e a todos os estratos da nossa sociedade. Eu ouvia com frequência esta frase ao nosso saudoso e querido Padre Manuel Henriques: “Sabes rapaz, quando em Fátima se toca o sino para ajudar, toda a gente aparece. Fica descansado que se pedirem ajuda, todos em Fátima colaboram!”. E nós estamos também cientes de que assim será - quando se tocar o sino a rebate os fatimenses irão comparecer!

 

NF – Não teme que a pandemia possa estragar a festa?

HS - Vamos ver se não nos irá obrigar a alterar a data de alguns eventos. Mas estamos optimistas! O primeiro evento de vulto está agendado para 12 de Julho, dia da cidade. Penso que, a partir de Abril, a pandemia vai abrandar.

 

NF – Como é que gostava que esta data fosse lembrada pelas gerações vindouras?

HS - Gostava que as pessoas sentissem que as bodas de prata da cidade da paz foram celebradas com a dignidade possível, numa época de pandemia e num ano que se prevê que seja um pouco de contenção, não só ao nível da câmara, mas também das empresas, porque não sabemos o que vem aí.

 

NF – A Junta de Freguesia quis também envolver as freguesias vizinhas nestas comemorações. Por alguma razão em particular?

HS - Entendemos que existem muitas ligações entre Fátima, Santa Catarina da Serra, Atouguia e Nossa Senhora das Misericórdias. Muitas pessoas vieram trabalhar para Fátima; outras ajudaram a construir a Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima; outras iniciaram os seus negócios, através dos artigos religiosos, e estabeleceram-se aqui.  No caso de Nossa Senhora das Misericórdias, pesou também o facto de uma parte do Bairro fazer parte da freguesia de Fátima.

 

 

NF - Por norma, o programa das comemorações de uma cidade inclui sempre a inauguração de uma obra. Neste caso, será a biblioteca de Fátima ou poderá haver mais surpresas?

HS - Da parte da Junta, é nosso desejo ver aquela obra concluída até ao final do ano, para podermos inaugurá-la e fechar com chave de prata estes 25 anos. Mas temos também a requalificação da Estrada de Leiria e o encontro de escultores, que também envolve as turmas de Arte do Colégio de São Miguel. Pode ser que daí suja alguma peça que dignifique a cidade. Também queríamos completar o painel do cemitério de Fátima.

 

NF - Fátima tem ainda várias carências. No seu entender, quais são as mais urgentes?

HS - Uma das principais lacunas da cidade, que recebe entre sete a oito milhões de visitantes por ano, diz respeito à mobilidade. A cidade precisa muito de investir nessa área, precisa de mais passeios, mais passadeiras, lancis rebaixados e passadeiras elevadas, para facilitar a circulação de peões.  Eu tenho toda a certeza de que a cidade ficaria a ganhar se algumas zonas passassem a ser só pedonais, como acontece já em várias cidades do nosso país e por essa Europa fora ou nos dias de grande movimento em Fátima. Iria enriquecer a cidade, o comércio, os negócios, os habitantes… Também seria muito importante criar parques de estacionamento a poente do Santuário, na zona entre as avenidas D. José Alves Correia da Silva e Papa João XXIII. O Santuário fez um trabalho espectacular na parte norte, por trás da Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima. Aqueles parques são fundamentais. Agora, devíamos requalificar a parte poente. Por exemplo, as zonas por trás da Rodoviária e da GNR em nada dignificam a cidade. E estão apenas a 500 metros do Santuário, que recebe sete milhões de pessoas por ano.

 

NF – O Município tem dado a devida atenção a Fátima?

HS - Na minha opinião, Fátima merecia mais e devia ser mais valorizada. É o tal problema de termos um concelho muito grande com duas cidades, e Fátima a precisar constantemente de adaptações. Por exemplo, as obras de saneamento que se fizeram há 10/20 anos já estão desactualizadas para uma cidade que cresceu mais do que o previsto. Aliás, Fátima tem sempre crescido mais do que o pensado.

 

NF - Falta o tal plano estratégico…

 HS – Sem dúvida! Fátima precisa de um plano estratégico para continuar a crescer ordenadamente. Ainda vamos a tempo de ter uma cidade ordenada, porque somos jovens. Além disso, há uma série de infra-estruturas a precisar de resposta. Por exemplo, temos de resolver a questão do Centro de Saúde de Fátima. Há oito anos foram feitas obras de algum vulto naquele edifício, que é da Junta de Freguesia, mas já são necessários mais três gabinetes para receber três médicos, que irão assegurar as três mil pessoas sem médico de família na freguesia. O edifício já não tem capacidade para acolher esses três gabinetes, só ocupando as actuais instalações da biblioteca, que, entretanto, vai ser transferida para a antiga EB1 de Lombo d’ Égua, cujo edifício está a ser requalificado para esse efeito. Mas daqui a quatro ou cinco anos, voltamos a ter o mesmo problema e, nessa altura, já não pode crescer mais. Temos também a questão dos bombeiros, que já devia estar resolvida há muito tempo. Para isso, precisamos do apoio do Governo, mas o orçamento previsto para este ano não contempla nem um cêntimo para aquela estrutura de apoio à Protecção Civil. No caso do nó de ligação do IC9 à A1, ficámos mais uma vez para trás. Fizeram um nó no Cartaxo - não circulam lá mais de 100 carros por dia; fizeram um nó em Ponte de Sor – também não passam lá mais de 200/300 carros por dia. E porque é que em Fátima não se cria o nó?

NF - Continua a existir um preconceito em relação a Fátima?

HS – Sem qualquer dúvida! E nos últimos anos, tem-se notado bem isso, porque temos tido governos de esquerda, estão sempre a cortar as pernas a Fátima. A questão do corte das turmas nos colégios é um bom exemplo disso.

 

NF - Gostava de ver a Junta de Freguesia com competências reforçadas?

HS - Podíamos ter mais algumas competências e a Junta tem capacidade para receber essas competências.  No entanto, não é assim tão fácil. A Junta de Freguesia está já no limite. Temos cinco administrativas e todas elas têm muito trabalho. O horário de saída é às 17h, e temos duas administrativas que ficam até às 18h30, porque têm sempre muito trabalho. Nós passamos entre 20 a 30 atestados por dia a cidadãos estrangeiros. Na segunda-feira [10 de Janeiro] passámos sete atestados a uma família brasileira que veio para Fátima. A cidade é cada vez mais multicultural. Sempre teve essa capacidade.

 

NF - Como é que gostava de ver a cidade daqui a 25 anos?

HS - Gostava de ver uma cidade moderna. Gostava que a cidade respondesse às necessidades das pessoas que aqui habitam. Mas também gostava que tivesse todas as condições para receber 10/11/12 milhões de visitantes. Gostava que a cidade oferecesse às pessoas museus, bibliotecas, entre outros espaços culturais, de desporto e natureza. Gostava que a cidade tivesse capacidade de receber pessoas. Gostava que a cidade conseguisse segurar cá mais tempo os visitantes, porque trazia mais riqueza, empregabilidade, desenvolvimento, independentemente de estar no concelho de Ourém ou de Fátima. Mas claro que gostava mais de a ver como sede do concelho de Fátima, mas mantendo as ligações a Ourém, Batalha, União de Freguesias de Santa Catarina da Serra e Chaínça.

 

NF - No caso de Fátima conseguir a autonomia, é da opinião que deve continuar integrada no distrito de Santarém ou Leiria?

HS – A opinião geral é que temos mais ligações com Leiria. Nós não estamos na zona do Ribatejo, não temos afinidades com a tauromaquia, agricultura, cavalos, campinos… Nós estamos a 60 quilómetros da sede do distrito e estamos a 16 da cidade de Leiria. Toda a afinidade é com Leiria. Neste aspecto, penso que a Igreja teve visão. A diocese é Leiria-Fátima. Aliás, a Igreja tem tido sempre visão, a começar pelo Santuário e pelas congregações que se estabeleceram aqui em Fátima. Contribuíram muito para o desenvolvimento da cidade, deram empregabilidade, conhecimento…Temos muitos advogados, professores, juízes que estudaram nos seminários de Fátima. Essas congregações estavam habituadas a grandes cidades e, quando vieram para Fátima, já pensaram em grande.