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“Fátima voltará a crescer e a florescer”, afirma o reitor do Santuário de Fátima

17-04-2020
A pandemia do coronavírus está a ter impacto em todos os quadrantes da sociedade e o Santuário de Fátima não é excepção. Em entrevista ao Notícias de Fátima, concedida por e‐mail, o reitor do Santuário de Fátima, padre Carlos Cabecinhas, explica abertamente como é que está a lidar com a situação, que obrigou, pela primeira vez na história, ao encerramento dos espaços públicos da instituição, deixando a cidade ainda mais vazia e silenciosa.

Notícias de Fátima (NF)  Esta pandemia mudou a vida de todos nós e obrigou a decisões até agora inimagináveis. Enquanto reitor do Santuário de Fátima, como é que tem encarado este desafio?

Padre Carlos Cabecinhas (P. CC)   A dimensão do desafio determina o tipo de decisões a tomar. Diante de um drama como este, o Santuário não podia deixar de dar uma resposta à altura, tomando decisões difíceis e dolorosas para defender quer os peregrinos, quer os seus colaboradores. Esta é uma situação para a qual nunca estamos verdadeiramente preparados, até porque a julgávamos, se não impossível, pelo menos improvável. O horizonte da fé e a confiança em Deus, que aqui nos fala através de Nossa Senhora, dá‑me a paz interior necessária para encarar este momento de tribulação e para tomar as decisões que, em cada momento, entenda necessárias ou oportunas. 

 


NF  Entre as várias mudanças que foi necessário fazer até agora na instituição, qual foi a mais difícil?

P. CC  Esta situação é toda ela excepcional para toda a gente, e para o Santuário em particular. Estamos sem peregrinos desde o início de Março; celebramos diariamente sem peregrinos, à porta fechada. Encerrar espaços no Santuário foi, sem dúvida, a decisão mais difícil, mas também a mais sensata. Embora tivéssemos de tomar uma decisão que nos impede de cumprir a nossa principal missão, que é a de acolhermos os peregrinos que aqui vêm em busca de um sentido, fizemo‑lo em prol de um bem maior. Por mais que isso nos tenha custado e nos custe. Mas foi um acto de fé.

 


NF  O Santuário encerrou os espaços públicos, mas continua a assegurar o apoio espiritual e também social e caritativo… Esse apoio é para manter?

P. CC  Este é um momento de grande dificuldade para todos. Desde logo para as famílias, para os empresários, mas, também para o Santuário de Fátima. Vivemos dos donativos que os peregrinos nos fazem. O mundo e o país estão, e bem, a lutar contra a doença. Mas sabemos que depois da sua cura outros problemas surgirão. Aliás, já estão a surgir. Basta olhar para as ruas, para os hotéis, para a restauração ou para o comércio tradicional de Fátima para percebermos que a situação é muito preocupante. Aqui em particular, mas em todo o país e em todo o mundo. E, não tenho dúvidas de que haverá um impacto muito significativo no turismo religioso e Fátima não passará incólume a essas dificuldades.Todos teremos de lutar contra a adversidade, contra as dificuldades. E, o Santuário também terá de ser ainda mais rigoroso na gestão dos seus recursos, que também não são inesgotáveis. O mais importante, e o que poderemos assegurar é que tudo faremos, e já estamos a fazer, para mantermos os postos de trabalho dos nossos colaboradores bem como os seus vencimentos. E o apoio social sendo uma componente essencial da nossa missão, que nem sempre é muito visível, e que fazemos quer à Igreja portuguesa quer a Instituições sociais quer ainda a famílias, em concreto, manter‑se‑á dentro daquilo que forem as nossas possibilidades. Devo dizer que o Santuário, em momentos de crise, tem sido, aliás, uma das portas onde as pessoas mais vêm bater. E dentro das nossas possibilidades nunca a fechámos. Queira Deus que o possamos continuar a fazer. Vontade e determinação não nos falta.

 

NF   Como é que o Santuário está a gerir a situação dos seus funcionários? Mantêm‑se todos a trabalhar?

P. CC   O nosso principal objectivo foi proteger os nossos colaboradores. Tomámos as decisões em função da evolução da Pandemia, e sempre tendo presentes os conselhos das autoridades políticas e de saúde. Proteger os trabalhadores contra a doença, mas também garantir os seus postos de trabalho e os seus vencimentos tem sido a nossa prioridade. Os que podem fazer teletrabalho estão nesse regime; os que não podem e têm de trabalhar nos espaços do Santuário estão a fazê‑lo respeitando todas as regras de comportamento social. Apesar da contingência do momento, a vida das instituições e das empresas não pode parar e o Santuário não fecha, até porque diariamente temos proporcionado a transmissão de uma série de celebrações para colmatar a impossibilidade das pessoas visitarem a Cova da Iria ou de participarem em celebrações comunitárias. Todos têm sido muito colaborativos com o Santuário, percebendo a emergência e a excepcionalidade do momento.

 

NF – O coronavírus obrigou à suspensão de toda a dinâmica do Santuário, mas continuam a decorrer algumas obras, nomeadamente no exterior. Pode explicar o que está a ser feito?

P. CC   As obras que decorrem no âmbito de uma empreitada adjudicada a uma empresa externa continuam a decorrer e visam completar uma intervenção que foi iniciada no lado norte do Santuário com a melhoria dos espaços de acolhimento dos peregrinos. Durante o centenário não foi possível concluir o resto da obra e é isso que nós estamos a fazer neste momento. À semelhança do lado sul, será uma zona mais arborizada, com equipamento urbano próprio e moderno para acolher os peregrinos dos parques do lado sul do Santuário.

 


NF – Além das obras em curso, estão previstas novas obras para este ano?

P. CC  Naturalmente que com esta situação excepcional teremos de avaliar o nosso plano de actividades para o ano em curso, sendo que a nossa prioridade continuará sempre focada nas pessoas: nos colaboradores e nos peregrinos que temos e devemos acolher.
Parte

 

NF   Têm chegado muitos pedidos de ajuda à instituição?

P. CC   Para além dos pedidos já habituais, têm chegado alguns pedidos de instituições para fazerem face a esta situação de pandemia, a que temos procurado dar resposta, dentro das nossas possibilidades. Por outro lado, estamos articulados quer com as autoridades locais e nacionais, para eventuais necessidades de apoio. Procuramos acompanhar o esforço de tantas instituições e particulares, ajudado o SNS com a aquisição de ventiladores. Uma das preocupações que nos acompanha, agora, é a das pessoas que já viviam com dificuldades e que se vêem desempregadas e sem rendimentos.

 

NF   Há quem diga que a sociedade não voltará a ser o que era, depois desta pandemia. O que tem a dizer sobre o assunto?

P. CC   Julgo que todos pensaremos isso, embora possamos não coincidir na identificação daquilo que mudará em concreto. A situação que estamos a viver deixou a descoberto muitas das fragilidades do nosso modo de vida e obriga‑nos a olhar para o futuro e a procurar novos caminhos, para nos reinventarmos. Julgo que é isso que vai acontecer. O acontecimento de Fátima, há cem anos, deu‑se num período dramático da história, em plena Primeira Guerra Mundial. Nesse contexto, Nossa Senhora, nas aparições aos Santos Pastorinhos, pediu‑lhes para rezarem, para acreditarem no poder reparador da oração e na necessidade de conversão. Esta crise, que não tem a força das armas da primeira ou da segunda guerra mundial, mas tem o poder da destruição de vidas humanas, veio dar uma nova centralidade àquilo que é prioritário, a coisas tão simples como um abraço, um beijo, um passeio, o poder sair de casa sem medo... Talvez esta pandemia que nos roubou a normalidade, que tantas vezes consideramos aborrecida, tenha esta vantagem de nos recentrar no essencial, numa maior atenção ao outro, numa valorização da simplicidade, numa atenção especial à casa comum que é de todos. 

 

NF ‑ No caso do Santuário, acredita que continuará a ser um oásis de espiritualidade e de esperança ou também terá de repensar a sua dinâmica e comunicação?

P. CC ‑ Os Santuários, e o de Fátima em particular, são lugares de acolhimento da fragilidade. Depois de uma crise como esta ainda haverá mais espaço para estes lugares. Os nossos peregrinos são portugueses, mas também vêm de todo o mundo. O homem tem sempre sede do transcendente e aqui em Fátima essa experiência tem passos e especificidades próprias que a tornam irrepetível.

 


NF   Quer deixar uma mensagem à população?

P. CC   Fátima vive, nestes dias, uma situação dramática, mas mesmo no meio das enormes dificuldades do momento presente há lugar para a esperança. Há cem anos, Fátima experimentou as consequências da última grande pandemia, a chamada “gripe espanhola”, que fez milhões de vítimas em todo o mundo e que, aqui, ceifou muitas vidas, entre as quais as dos santos Francisco e Jacinta. E ergueu‑se dessa situação, num crescimento contínuo até aos dias de hoje. Passada esta pandemia do novo coronavírus, Fátima, com as suas gentes, confiada na protecção da Virgem Maria e contando com a intercessão dos santos Francisco e Jacinta Marto, voltará a crescer e a florescer. Animados por esta esperança, importa vivermos o momento presente como tempo de solidariedade e ajuda mútua. 

 

Fotografia: DR