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O que é isto de viver em clausura? As irmãs Dominicanas do Rosário Perpétuo partilham o seu testemunho e dão-nos quatro conselhos de fé

14-04-2020
Conversámos com as irmãs Dominicanas do Rosário Perpétuo, com casa em Fátima desde 1954, o Mosteiro Pio XII. A nossa interlocutora foi a irmã Maria Lúcia, a prioresa, que também é enfermeira, e que logo ao primeiro contacto nos diz que, com a pandemia, “muitas pessoas estão a ter a experiência de estar enclausurado, por motivos diferentes dos nossos e com diferentes efeitos, mas em clausura”.

 

Notícias de Fátima (NF) – Sabem o que está a acontecer no mundo?

Irmã Maria Lúcia (I.ML) – Estamos estreitamente unidas às nossas irmãs e irmãos em todo o mundo, que estão a viver esta experiência de pandemia. Mais importante, nós acompanhamo‑los em oração e, como o Anjo de Portugal ensinou às Crianças, fazemos tudo o que podemos para sacrificar em reparação. As nossas irmãs vêm de várias nações [a irmã Maria Lúcia é americana] de três continentes diferentes. Assim, do nosso claustro aqui em Fátima, estamos natural e espiritualmente solidárias com o mundo inteiro neste momento de sofrimento universal. Não podemos deixar de lembrar que, no ano passado, precisamente no dia 15 de Abril, o mundo assistiu ao incêndio da catedral de Notre Dame, em Paris. Era Segunda‑Feira da Semana Santa. Uma foto que vimos mostrava os destroços do telhado desabado, na base da estátua da Pietà. Maria parecia estar a dizer: “Eis o Meu Filho e a Sua Igreja”. Um ano depois, novamente estamos na época santa da Quaresma e o mundo inteiro está envolvido nesta ameaça de propagação da pandemia.


NF – Como interpretam a situação?

I. ML – Vemos esta crise como uma oportunidade. Através do sofrimento, através da Cruz virá uma nova vida. Por um lado, a lista das nossas transgressões é longa demais e ainda não conseguimos ouvir o que Nossa Senhora pediu em Outubro de 1917: “Não ofendam mais a Deus, Nosso Senhor, porque Ele já está muito ofendido”. Alguns comparam esta crise aos castigos que Deus, que, na Sua misericórdia, teve que permitir no Antigo Testamento ao Seu povo escolhido, quando ele desobedeceu. Por outro lado, o que percebemos hoje em dia é um grande silêncio ao nosso redor. A nossa campainha está quase silenciosa; o campo de futebol está silencioso; a rua da frente está quase silenciosa e a ausência de peregrinos em Fátima deixa um grande silêncio e quietude. O silêncio mais profundo é o silêncio da Liturgia Sagrada, que é emocionante para os fiéis. Sentimos isso profundamente. Contudo, cremos e esperamos que neste silêncio Deus fale ao coração de todos os Seus filhos. Por isso, oramos! Já aprendemos sobre tantos actos de caridade praticados por pessoas de todo o mundo. Nós mesmos experimentamos essa gentileza e caridade. Aproveito esta oportunidade para agradecer a todos que demonstraram preocupação e ofereceram a sua ajuda neste momento, em particular os nossos Padres Dominicanos.

 

NF – Como é habitualmente a adaptação à clausura monástica?

I.ML – A vocação para o estilo de vida monástico fechado começa com um chamamento de Deus. É um presente de Deus, uma graça especial por ser ‘amor no coração da Igreja.’ A vida contemplativa enclausurada é antes de tudo uma vida de louvor contínuo a Deus. Para isso, Deus escolhe quem Ele quer (Jo 15, 16) e não por mérito próprio. Somos chamados a cantar os louvores de Deus aqui na terra, mesmo quando as nossas irmãs e irmãos estão ocupados com seus muitos cuidados e preocupações com a vida no mundo. O recolhimento é um meio essencial para o objectivo da união da alma com Deus, que é o amor. A adaptação a este modo de vida tem os seus desafios. Na verdade, é um desenraizamento de um padrão de vida no mundo para um modo de vida novo e muito disciplinado no claustro. No entanto, o chamamento de Deus é sempre acompanhado pela graça e, pouco a pouco, o ajuste é feito. Deixar a família não é fácil. Algumas de nós vieram de famílias pequenas e outras de famílias muito grandes, mas, também aqui, Deus concede as graças necessárias para crescermos em amor sobrenatural para com as nossas famílias. O amor natural permanece sempre, mas agora amamos os nossos familiares em Deus. Cristo prometeu que aqueles que deixarem mãe e pai, irmã e irmão e até mesmo o lar e o país por causa do Reino de Deus, serão recompensados cem vezes. Ele cumpre Suas promessas.

 

NF – Como tratam das questões práticas do dia‑a‑dia?

I.ML – Contamos com a ajuda de amigos para tratar das compras, mas às vezes é necessário as irmãs fazerem compras. Actualmente temos os bens essenciais e os produtos da nossa horta. Em tempos normais saímos para consultas médicas ou dentista. Se uma de nossas Irmãs requer cuidados especiais contamos com assistência de pessoas que vêm ao mosteiro. Estamos‑lhes muito gratas. Como todos, aguardamos para ver o que acontecerá nas próximas semanas e meses. Oramos e confiamos que Deus proverá.

 

NF – As irmãs estão isoladas, mas juntas, em família. Mas muitas pessoas estão a viver este momento sozinhas, porque a família está longe, porque vivem sozinhas e agora não podem sair à rua, porque estão deslocadas em termos de trabalho, porque estão em quarentena por motivos de saúde... Que mensagem lhes podemos fazer chegar?

I.ML – Esse tempo de clausura necessário é difícil para a população em geral.  De repente, as actividades fora de casa – e pode haver muitas – têm de cessar. Embora Deus permita este grande flagelo de pandemia, Ele também está a fornecer graças abundantes aos Seus filhos. Às famílias a graça de descobrirem ou redescobrirem a alegria de estar juntos, de ter tempo para compartilhar memórias e conhecer‑se melhor. Deus quer as nossas famílias unidas e reconciliadas. Deseja que descubram a beleza, a força e a alegria dos laços familiares que Ele mesmo criou, que são únicos e insubstituíveis. Para aqueles que vivem sozinhos em suas casas, também há graças especiais, já que participam profundamente na Paixão de Cristo quando Ele entrou no Getsêmani. O Evangelho diz‑nos que Ele sozinho orou: “Abbá, Pai, tudo te é possível; afasta de mim este cálice! Mas, não se faça o que eu quero, e sim o que Tu queres” (Mc 14, 36). Para aqueles que permanecem nos seus lares sozinhos, mais oração, mais união com o Pai pela salvação do mundo. É para isto, que somos chamados neste momento. Oramos também para que os Santos Anjos ajudem os idosos e os que vivem sozinhos, assim como o Anjo veio a Nosso Senhor no Jardim para o fortalece‑Lo (Lc 22, 43). Por aqueles cujo lar está sob as estrelas, que não têm casa, e pelos que vivem em campos de refugiados e prisões, oramos para que também eles recebam graças particulares nesses tempos. Mesmo com muitas dificuldades e incógnitas, agradecemos por esta experiência de clausura temporária. Para que dê frutos, frutos que durarão (Jo 15, 16).

 

Quatro conselhos de fé

Pedimos à irmã Maria Lúcia quatro conselhos de quem vive em clausura monástica para quem agora está em casa, em distanciamento social, isolamento ou quarentena. Deu-nos os seguintes:

1 – Ordem

Existe uma estrutura e ordem na nossa vida de clausura monástica que empresta um ritmo tranquilo a cada dia. Sem isso, a paz, o silêncio e a alegria estariam em perigo. Para aqueles que agora estão obrigados a viver "fechados" nas suas casas, com a família ou individualmente, tentem estabelecer alguma estrutura e ordem nos vossos dias, e cumpri-la.

Tempos de oração, especialmente o Rosário e até um breve período de silêncio, podem fazer parte do dia. Uma vez por semana, em família, reúnam-se para ler o Evangelho e compartilhar suas reflexões sobre a Palavra de Deus. Isso é muito enriquecedor para as famílias e é um meio de conhecer e entender melhor o outro. Para quem está sozinho, isso pode ser feito virtualmente com os membros da família à distância.

2 – Oferta

Aqui, em Fátima, vivemos este momento de sofrimento e sacrifício em solo sagrado. Com esse privilégio, há também uma obrigação. Portanto, ofereçam tudo no espírito de Fátima: “Ó Jesus, é por amor a Ti, pela conversão dos pecadores e em reparação pelos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria”.

O que Deus quer é a conversão dos corações. Nestes tempos, a vida é rica em oportunidades de sacrifício. Entreguem tudo, entreguem tudo a Deus para que os mais necessitados possam encontrá-lo novamente.

3 – Confiança

“Não tenham medo!" – O amor em vez do medo. Naturalmente, muitas pessoas sentem medo. O medo geralmente surge do desconhecido. Com esta pandemia, existem muitas incógnitas. Nas circunstâncias actuais, há o medo de quanto tempo isto vai durar ou de quem será o próximo a ser afectado. Se vivo sozinho, quem cuidará de mim se eu ficar doente? Como posso sustentar minha família sem trabalho? Todos esses medos são normais e, ao mesmo tempo, relacionados ao desconhecido.

Na vossa oração, nomeiem os medos e depois entreguem-nos a Nossa Senhora, pedindo-lhe que os coloque directamente no coração de Jesus, através do seu lado aberto. Peçam a Jesus que troque todos os vossos medos pelo seu amor. Quando alguém pergunta: "O que podemos fazer para ajudar?", a minha resposta simples é: "Orem e amem-se uns aos outros". Este é um momento de grande sofrimento, compartilhado por toda a família humana. Torna-se, portanto, um tempo de amor, para permitir que o amor de Cristo dirija as nossas vidas e vivamos este Calvário, que, à Sua mercê, Ele nos pede para compartilhar. Desta forma, com a ajuda de Nossa Senhora, cada dia se tornará como um dia de Páscoa!

 – Oração

Somos chamados a louvar a Deus e a interceder pelas necessidades da Igreja e do mundo inteiro. O coração de nosso fundador, São Domingos, abraçou os pobres e os necessitados, especialmente aqueles que ainda não conheciam a Cristo e os que se afastaram da Verdade. Uma herança especial da Ordem Dominicana é o Santo Rosário. Nestes tempos de pandemia, o Rosário sustentar-nos-á, como aconteceu com tantos católicos em tempos de perseguição e ausência dos Sacramentos. Nossa Senhora do Rosário de Fátima, rogai por nós!

 

Fotografias: Humberto Magro