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José Poças

10 de September, 2020

Faça a via sacra a pé e no regresso… compre um automóvel

Ao longo dos últimos anos, nesta mesma página, tenho vindo a alertar quem de direito (não só o poder político, mas também todos nós que temos o dever cívico de participar) para um “fenómeno” que considero preocupante. 

Como é sobejamente conhecido, a actual cidade foi sendo construída um pouco caoticamente, deste a década de 1920. Se é certo que se começou a olhar Fátima de forma diferente em 1945 com o despacho do secretário de Estado de 9 de Abril aprovando o ante projecto do Plano de Urbanização da então Cova de Iria, há ainda muita coisa por fazer. Se já é impossível contrariar algumas aberrações que foram feitas no passado, cabe à nossa geração lutar por manter Fátima preservada e cuidada, não deixando que a dita poluição visual venha afectar negativamente quem nos visita ou quem cá viva. Sirva o exemplo da velha história da galinha dos ovos de oiro.
Numa anterior crónica relembrei a Associação Fátima Cultural que, apesar da sua duração, teve um papel importante na dinamização e preservação arquitectónica e cultural da nossa freguesia. Nesta mesma página do jornal alertei para a necessidade de se criar um conjunto de dispositivos legais camarários que, atendendo à excepcionalidade de Fátima, dessem especial atenção à envolvente de alguns dos espaços da cidade.
Não se pretende criar obviamente um conflito de interesses com o comércio e os negócios dos nossos empresários. Neste momento de crise (e não só) tomáramos nós que se criassem mais empregos. Mas há locais que têm de permanecer “intactos” ou seja, preservados na sua envolvência “especial”, desta nossa cidade da Paz.
Quatro exemplos, que reputo de importantes. Quando saímos da auto-estrada e nos dirigimos para a Rotunda Norte, começa a ser exasperante a quantidade de anúncios a que somos sujeitos. Deveria haver um limite para a publicidade nessas zonas de acesso e na Avenida Dom José Alves Correia da Silva. Se não se fizer nada agora, arriscamo-nos a que, no futuro, à semelhança da entrada de algumas cidades portuguesas, os cartazes se contem pelas dezenas, descaracterizando completamente Fátima.
Todos sabemos que existe cada vez mais o Portugal dos portugueses e um outro país que fica por conta dos partidos, que gozam de uma quase total impunidade. Sirva o exemplo de um partido que, sem pedir licença a ninguém, resolveu colocar um cartaz de propaganda na Rotunda Norte. Se a Câmara tentar tirá-lo, pode ser posta em tribunal por danificar propriedade partidária. E assim a estrutura metálica vai ficando, num espaço público, recebendo os peregrinos. Uma autêntica vergonha.
O terceiro caso é o da altura do totem com que uma famosa cadeia de fast food, situada no início da Avenida Dom José Alves Correia da Silva, “recebe” quem nos visita em peregrinação e/ou turismo. O sinal que guia os peregrinos até ao Santuário não é uma simples estrela igual à dos Reis Magos em Belém, mas sim um gigantesco totem que se ilumina à noite. Será que a Câmara não tem uma palavra a dizer neste assunto?
Já agora, uma chamada de atenção sobre a Avenida Papa João XXIII. Recebendo o trânsito vindo da auto-estrada, é uma estrada perigosa, onde há acidentes com grande frequência. Sabemos que é uma estrada nacional, mas a sinalização no alcatrão quase desapareceu. Para além disso, é urgente encontrar-se uma solução provisória (semáforo limitador de velocidade no sentido norte-sul?), enquanto não se constrói a projectada rotunda, que permitirá resolver grande parte dos problemas de circulação. Ou será preciso haver mais alguns atropelamentos mortais para se resolver esta situação?
Finalmente a cereja em cima do bolo, o novo stand de automóveis junto ao início da Via Sacra. Embora se afirme que o processo foi feito à revelia da Câmara (não sei se é verdade ou não), o levantamento do auto e o possível processo pode levar meses, dada a morosidade da nossa justiça. Entretanto, será talvez melhor pensarmos num slogan que atraia quem nos visita, género “percorra a via sacra a pé como peregrino e, no final, como está cansado, compre um automovelzinho”.
Ironia à parte, certo é que a Câmara pode e deve arranjar uma maneira legal (urgente!) de, atendendo à excepcionalidade de Fátima, defender os espaços histórico/religiosos (convêm não esquecer Aljustrel e a envolvente da Igreja de Fátima). Até porque, como diz o ditado popular, “depois de casa roubada, trancas à porta”.

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