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José Poças

17 de dezembro, 2021

Um Natal … com máscara

O Advento (do latim Adventus, que significa chega­da) traduz-se no primeiro tempo do ano litúrgico, que corresponde às qua­tro semanas antes do Natal. Os cristãos conside­ram-no um tempo de preparação e de alegria que antecede o nascimento de Jesus. É um tempo para promover o arrependimento, a harmonia, a paz e celebrar a vinda do Deus Menino à terra.

No fundo, é uma altura em que fazemos uma retrospectiva anual, deixamos cair as nossas máscaras (sentido figurado) e arranjamos tempo para pensar em todas as pessoas que se tornaram hóspedes vitalícias no nosso coração.

Mas este vai ser um Natal diferente. Até porque as máscaras que usamos em tempo de pandemia são bem diferentes. E afastam-nos dos outros. Como diz a poeta italiana Mariangela Gualtieri, “agora sabemos que triste é estar distantes um metro”. À distância do aconchego de um abraço apertado que não podemos ou devemos dar. A esse respeito, o cardeal José Tolentino Mendonça acrescenta que “a verdade é que passamos a transportar esse vazio em nós. O vazio de todos os abraços não-dados. Que, por vezes, nos pesa como uma ferida”.

Vivemos pois num tempo em que é preciso coragem para ter esperança. Não podemos (ou não devemos) deixar-nos cair no desânimo total, não podemos perder de vista os sonhos existenciais. E é para isso também que serve o Natal.  Jorge Cotovio «inventou» uma palavra que deveria fazer parte do dia a dia de todos nós cristãos - Enteusiasmo – ter Deus dentro de si, com entusiasmo, com fé, com esperança num futuro melhor para a humanidade.

O Natal, é uma festa de salvação, uma festa de família, uma festa de paz e de fraternidade. É assim que também nós o vemos e o celebramos, apesar das máscaras e dos testes COVID, que servem para proteger a nossa família e os que nos são mais próximos.

 Mas também, infelizmente, esta pandemia tem feito surgir alguma desumanidade especialmente no que toca ao atendimento aos mais desfavorecidos e idosos. A sobranceria de alguns funcionários de serviços públicos e a maneira ditatorial como são impostas novas regras nesses mesmos serviços (algumas sem o mínimo sentido práctico) deveriam ser objecto de reflexão.

 A esse respeito, no livro O caçador de elefantes invisíveis, de Mia Couto, há um personagem que faz uma afirmação espantosa: “Conheço bem essa doença. Chama-se indiferença. Era preciso um hospital do tamanho do mundo para tratar essa epidemia”. Parece portanto que estamos a substituir uma epidemia viral por uma outra bem mais grave e profunda, que vai servindo de desculpa para tudo.

 É certo que vivemos tempos complicados. Mas esta época de incertezas e medos deveria ser a ocasião para sermos mais solidários, mais atentos ao sofrimento dos outros. Abbé Pierre escreveu um dia a este propósito que “a esperança de uma vida digna tem de vir dos laços, da relação com os outros, da atenção que prestamos aos que nos rodeiam”.

 Nada ilustra melhor a nossa triste sina do que esta pequeno episódio. Conta-se que no balanço do lema “Por um futuro melhor”, a Televisão de Moçambique fez um inquérito popular. À pergunta:

 - «Sente que a sua vida está a melhorar?»,

 uma pessoa respondeu assim:

 - «Está melhorar, sim senhor. Mas está a melhorar muito mal.»

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