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José Poças

19 de June, 2020

O mundo não é a preto e branco

O mundo é a cores e, por isso, combater o racismo deve ser da responsabilidade de todos nós. O problema é que se na extrema direita domina o populismo, a extrema esquerda adoptou a censura. 

 

Há hoje em dia um exército de censores quase analfabetos, que distorcem a realidade histórica. Estranha‑se esta cólera “sagrada”, em que não se procura discutir o racismo, apenas se rotulam, hostilizam, e/ou excomungam pessoas. Este foguetório politicamente correcto cria a perigosa ilusão de que o racismo está a ser fortemente combatido, quando apenas se está a criar um novo totalitarismo. 

 

Parafraseando o insuspeito esquerdista e comediante Ricardo Araújo Pereira, “acho inquietante que o moderno anti‑racismo seja tão parecido com o antigo racismo. (…) Há várias coisas nisto do Politicamente Correcto, vários subfenómenos, como apropriação cultural, etc, que são uma espécie de racismo invertido.”

 

O curioso é que o escritor George Orwell no seu livro de referência, 1984, já escrevia que “todos os registos foram destruídos ou falsificados, todos os livros foram reedescritos, todos os quadros foram repintados, todas as estátuas, todas as ruas, todos os edifícios renomeados, todas as datas foram alteradas. E o processo continua dia a dia, minuto a minuto. A história foi interrompida. Nada existe além de um presente interminável no qual o partido tem sempre razão”.

 

É indiscutível que vivemos  num mundo em que existe racismo, mais ou menos encoberto, em todos os países, incluindo os do continente africano.  Tidiane N’ Diaye, referência mundial no que à História de África diz respeito, escreveu em 2019 o livro O Genocídio Ocultado, em que faz uma cuidada investigação histórica sobre o tráfico negreiro arabo‑muçulmano. Descreve como milhões de africanos foram massacrados, capturados e deportados pelos árabes, muito antes do começo dos descobrimentos, mantendo‑se ainda, hoje em dia, a escravatura nalguns desses países africanos. Não podendo ser atacado por causa da cor (é um negro), resta aos profetas do politicamente correcto o silêncio, o tentar que seja esquecido este importante contributo científico.

 

Hoje em dia pretende‑se redescrever a História com base em emoções em vez de factos. Não se nega a violência e o odioso que foi o tráfico de escravos. Mas procissões de auto flagelantes (leia‑se denegrir Portugal) é que não. Joseph Miller diz que há pessoas que sofrem de “presentismo” têm uma abordagem ética mas não têm uma abordagem histórica do nosso passado. Pensam o passado com as regras do presente. No fundo é uma negação da história.

 

Há ilustres (?) académicos e historiadores (?) que comparam o derrube das estátuas de Estaline e de Hitler ao que deve ser feito em relação às estátuas de figuras de séculos passados. Não é História que estão a analisar, é apenas pura ideologia política. 

 

Se Portugal tivesse que pedir desculpa pelo seu passado, seria melhor começarmos pelos Egípcios (uma vergonha aquelas pirâmides feitas com trabalho escravo) e por aí fora, arrastando todas as civilizações, até chegarmos à Revolução Francesa.

 

É condenável a escravatura, mas não era contrária à lei e moral da época. Comparar Hitler aos esclavagistas é não perceber nada do que é o tempo histórico. Cada época tem a sua cultura e moral própria. A partir de meados do século XIX a escravatura passou a ser considerada um crime. Sá da Bandeira (de esquerda) e o Duque de Palmela (de direita) foram dois dos grandes responsáveis pela abolição da escravatura em Portugal. Não foi abolida por nenhum movimento de escravos, foi a consciência liberal que o fez, proclamando que a “liberdade, igualdade e fraternidade” devia ser extensivo a todos os homens, independentemente da sua cor ou religião.

 

No preâmbulo do decreto‑lei de 10 de Dezembro de 1836, pode ler‑se que “o infame tráfico dos negros é certamente uma nódoa indelével na história das nações modernas ‑ (…) emendar pois o mal feito e impedir que mais nnão se faça é dever da honra portuguesa”.

 

Até essa época, foi uma forma de comércio, à escala planetária, sancionada pela lei, pela religião e pelos costumes da época. Claro que não nos devemos orgulhar desse tráfico hoje em dia, devemos debatê‑lo, apontar os erros, mas também as virtudes desses tempos. Permitam‑me um exemplo. Joaquim Ferreira dos Santos (1782 ‑1866), 1º Conde de Ferreira, amealhou uma grande fortuna no tráfico negreiro entre Angola e a Costa do Brasil. Benemérito da Santa Casa da Misericórdia do Porto, e outras instituições de beneficência, foi o grande mecenas da instrução primária em Portugal, conforme consta no seu testamento: “convencido que a instrução é um elemento essencial para o bem da sociedade, quero que os meus testamenteiros mandem construir e mobilar cento e vinte casas para escolas primárias de ambos os sexos nas terras que forem cabeça de concelho, sendo todas por uma mesma planta e com acomodação para vivenda do professor”.

 

Criou o Recolhimento dos Velhos e o Recolhimento dos Órfãos, no Porto. Fundou o Hospital Conde de Ferreira, para doentes de foro psiquiátrico. A lembrança do seu nome, presente numa rua e em várias instituições pretende homenageá‑lo como traficante negreiro ou como altruísta?

 

Deixo‑os com duas reflexões finais:

1. Michael More, um guru do politicamente correcto, escreveu um livro intitulado Brancos Estúpidos. Imaginem se o título se referisse a outra etnia…

2. Cláudo Ibraim Vaz Leal, lateral direito do Porto na década de 80 do século XX, era conhecido apenas por Branco, porque começou a sua carreira de futebolista numa equipa onde era o único branco e por isso deram‑lhe essa alcunha. Imaginem agora que havia uma equipa de futebol de brancos, com apenas um jogador de cor e que resolviam dar‑lhe uma alcunha relacionada com a cor da sua pele…

 

Como diz e bem Mafalda Anjos, “a História não se muda passando‑lhe um toalhete desinfectante por cima, mas o futuro muda‑se se debatermos abertamente os erros e não esquecermos o passado.” Sem o puritanismo dos extremistas. Esta Escola do Ressentimento e da violência apenas pode levar a que as pessoas passem pela floresta da humanidade ao longo dos séculos e só vejam lenha para a fogueira.

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