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Alexandre Marto Pereira

18 de Outubro, 2019

Allegro ma moderato

O turismo continua a criar sorrisos aos portugueses. É uma das poucas áreas económicas que permitem publicar números simpáticos, mil vezes replicados por imprensa e políticos. Parece uma música inebriante que vai galvanizando quem a ouve, escondendo que a música não chegou ao fim, e que o compasso vai variando os andamentos. Allegro ma moderato, aconselharia eu nesta fase.

Os números agregados, que tratam do número total de hóspedes ou de dormidas no país batem fortemente os records. Mas isso não tem espelho na rendibilidade dos hotéis. A taxa de ocupação do país acumulada até ao final de Agosto está negativa em relação ao período homólogo – o que permite antever uma pressão deflacionária. Por outro lado, o peso dos turistas estrangeiros tem vindo a cair em benefício dos hóspedes nacionais – o que volta a deixar o turismo mais vulnerável a uma (eventual?) futura crise económica interna.

A taxa de ocupação­ quarto foi no final dos primeiros 8 meses, de 65,3% o que representa uma queda de 0,7 pontos em relação ao período homólogo de 2018. E no entanto, o número de hóspedes totais no país aumentou 7,2%. A explicação é simples, e nasce de dois fatores: os hóspedes geraram menos noites (o número de noites aumentou apenas 4%), mas principalmente a oferta de camas não para de aumentar. Em Ourém­ Fátima o caso é particularmente grave. A leitura do quadro abaixo deixa os mais incautos felizes pelo comportamento da procura turística na cidade. Crescemos 9% em relação ao período homólogo… O crescimento do mercado nacional é forte, e justifica quase metade do crescimento – mas traz os riscos antes apontados. O crescimento internacional foi principalmente alimentado pela Ásia e por uma recuperação do mercado brasileiro.

Na Europa, o crescimento está anémico, e em Fátima é alimentado curiosamente pela procura espanhola – tipicamente mais sensível ao preço. Um sinal de um regresso em peso de operações mais baratas? Ainda assim, os números permitiriam algum otimismo, não fosse o contínuo crescimento desestabilizador do crescimento da oferta. Em 2010 estavam registadas 3.699 camas em empreendimentos turísticos no município. Em 2015 eram já 6.825. Hoje (Outubro de 2019) são 7.363. Somadas à capacidade de utentes em Alojamento Local, hoje Ourém ­Fátima atinge uma capacidade de alojamento turístico que supera facilmente o número redondo de dez mil. A que se somam as camas que a Igreja disponibiliza aos peregrinos. Essa capacidade que não parou de crescer representa uma capacidade de oferta anual superior a 3,7 milhões de noites.

Com os números apontados, a taxa de ocupação ­cama em Fátima foi de 23,7% no primeiro semestre deste ano. Os números são assustadores quando comparados com o resto do país, não apenas porque as camas estão vazias, mas pelo que o tema representa em termos de pressão sobre preços, consequente rendibilidade e demais efeitos sobre a economia local. O que fazer? Numa economia em que a liberdade de empreender não pode nem deve ser condicionada pelo Estado, a proibição de construir é na minha opinião errada. Cabe no entanto ao Estado advertir, informar os empresários mais incautos sobre a rendibilidade dos investimentos. E cabe a todos encontrar formas eficientes de gestão e de adaptação ao que pode aí vir.

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