Notícias de Fátima
Sociedade Religião Lazer Educação Desporto Política Opinião Entrevistas Como Colaborar Contactos úteis Agenda Paróquia de Fátima
PUB

Carina João Oliveira

17 de junho, 2022

25 Primaveras

Temos que dar os parabéns à cidade. À terra não, que é centenária, milenar, que já por cá existia antes de lendas de princesas e cavaleiros, até mesmo de encontros com o divino. Neste planeta que nos é dado a habitar, o tempo nem sempre tem a mesma medida dos homens.Todos temos vivências pessoais e com isso transportamos a visão sobre muitos assuntos, comigo não é diferente. Aqui  nasci e cresci, já daqui saí e já aqui regressei.

Tinha 20 anos quando nasceu a “cidade”. É impossível não apontar desenvolvimento, dinâmica e mudanças. Mas também coisas que não mudam, cristalizadas com o tempo e duras como rochas.

Não havia biblioteca no meu tempo. As deslocações semanais para ter acesso a uma grade variedade de livros, eram feitas a pé, entre a Rua do Rosário quase sem pavimento e o cruzamento do Cinquentenário, onde estacionava uma carrinha da Calouste Gulbenkian que nos mostrou os sonhos no caminho. Devorei livros talvez porque não os havia.

Hoje há livros a mais, acessos instantâneos a toda e qualquer literatura do mundo (nem sei se alguém os lê), também continuamos à espera de uma biblioteca e o pavimento da rua continua mau. Foi-se a carrinha que nos trazia o ritual no tempo certo. Mas nunca estivemos isolados do mundo. O mundo sempre nos visitou.

Nas festas dos santos reunia-se a malta “dos anos”. Os que faziam 20 anos organizavam a festa dos 20, os 30 a sua, 40, 50…e assim continuamos também hoje. A música é qualquer pimba que esteja na berra, e assim ainda hoje festejamos com frango nas festas. Honra seja feita aos que em 1977 nasceram* e se lembraram de começar um Festival da Paz (2017), depois apropriado pela Junta e ganhou a dimensão que conhecemos este ano. É quase um Rock in Fátima yeah! Isto não havia, agora há em bom e que assim continuem!

Há casas abandonadas nestes 25 anos, a par dum mercado imobiliário novo sem oferta, onde o IMI em certas zonas da cidade equipara Lisboa. Ser cidade é ter destas coisas. Nunca irei perceber como é que os R/c dos prédios convivem anos a fio com lojas desocupadas de vidros sujos, mas o preço das rendas é quase proibitivo. É preferível estar vazio?...são as tais dores de crescimento.

É incontornável falar do Santuário. Vive com o tempo, o nosso, o da cidade, haverá de sobreviver a todas as nossas gerações. Cresceu ordenado num tempo sem regras, num tempo de muitos recursos e quase em campo aberto. Além de crescer em idade, cresceu em graça e sabedoria. Resistiu às caricaturas. A história conta com muito mais do que celebrar as aparições nas missas, e esse trabalho consistente foi possível pela mão do Santuário.

O turismo, que por cá conseguimos profissionalizar, tem nele o seu centro nevrálgico e isso também não mudou em 25 anos. É bom ter uma cidade jovem com 25 anos. Tão nova quanto todas as nossas memórias. Este ano o calendário de celebrações é imenso e intenso, digno de 25 primaveras de cidade e palmas sejam também batidas a quem o está a pôr em prática.

Escrevo estas linhas a ouvir a canção de Caetano, “Tempo tempo tempo tempo…ouve bem o que te digo…” e se pudéssemos pedir ao tempo ajuda na luta pela nossa originalidade? Que pedidos fazíamos ao soprar estas velas de aniversário? Sonhemos.

*registo de interesses: sou de 77, mas o trabalho não foi meu.

Últimas Opiniões de Carina João Oliveira