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Carina João Oliveira

7 de janeiro, 2022

Social e Democrata

Primeira crónica do ano de 2022 onde me lanço ao tema do mês e do nosso futuro colectivo próximo: as eleições legislativas. Não sou Liberal e não sou Socialista. Isso podia fazer de mim muita coisa, mas assumo a minha condição de Social‑Democrata. Há anos que assim é, não é surpresa para ninguém. Quero com isto dizer que, independentemente de concordar pontualmente com coisas aqui e ali que possam ser retiradas desses contextos, serão sempre avulsas face à moderação com que entendo que a sociedade deva ser organizada. Sobretudo as funções do Estado, daí me encontrar precisamente a meio.

 

Lamento a profusão de propaganda barata que passa pelas redes sociais onde encontro mais medidas para destruir a economia e as nossas (frágeis) relações de tecido social democrático, do que programas construtivos e de futuro. Ao dia em que escrevo só vi um dos debates do modelo de 25 minutos em versão Wrestling. É lamentável que em qualquer uma das televisões se gaste mais tempo com entretenimento barato do que com um modelo de debate que conduza a mínimos de seriedade, em vez de conversas acicatadas onde “ganha” que consegue ridicularizar mais ou mandar bocas mais fortes ao adversário. As TV fazem um mau serviço ao público, sejam elas geridas por públicos ou privados.

 

Costa tem aproveitado habilmente este vazio para perpetuar poder. Apenas. As reformas do Estado foram confundidas com “mais orçamento” em cima dos problemas de sempre, ou pior, nacionalizações a qualquer custo. Não funciona, sobretudo porque os recursos são limitados num país pobre como o nosso. Com isto o PS tem governado (mal) o país – 18 anos nos últimos 25. E nos tempos recentes o PSD só governou em emergência financeira depois de uma pré‑bancarrota do PS.

 

Podemos sempre dizer que a culpa é do Passos, mas a verdade é que a solução governativa à esquerda não funcionou neste passado recente de “geringonça”. Não foi virada página nenhuma de austeridade só porque lhe chamaram “cativações”.

 

Não houve reposição de rendimentos quando a factura de impostos aparece cada vez mais elevada. A organização e gestão do Estado é uma bagunça, não há serviço funcional nenhum que não se queixe das “carreiras” e das injustiças que os anos lhe têm conferido. E temos Ministros apostados em ser patrões da coisa pública mais do que governantes da nação.

 

Agora é que vão aumentar salários? Sobretudo os “médios” onde não têm poder? Os Fundos Comunitários estão capturados numa malha e teia tão profunda e tão complexa que dificilmente irão chegar a mudar a sociedade, por estarem praticamente alocados a despesa corrente. A máquina do Estado consome parte substancial disto sem que nada chegue a dar resultados duradouros. Temos uma máquina de despesa pública enorme, e uma sociedade que não retribui, enferma há anos sem crescimento, reformas ou modelo económico que nos permita reagir.

 

A gestão da pandemia deixou à vista as fragilidades do Estado e do nosso tecido social, que, da saúde à rede de apoios, foi posta à prova. Valeram‑nos as autarquias. Não me canso de dizer que só vemos a face do Estado Central nas grandes áreas de Lisboa e Porto. Aqui no país real, somos governados por autarquias que se desdobram para dar resposta ao que conseguem – e muito fizeram, das freguesias ao poder municipal. De resto, não vimos ninguém no terreno. Há um descompasso visível entre a realidade e os discursos e é por isso que nichos de eleitorado urbano como os Liberais, não conseguem dar resposta a “estes” problemas reais, de pessoas que não são todas empreendedoras/esclarecidas/ letradas/jovens. O Estado e as suas funções não podem ficar reféns duma feira onde pode quem dá mais. As propostas a que temos assistido desta “liberalidade” de partido, são desreguladas, mais próprias de uma anarquia (sem regras) do que de uma democracia onde o Estado tem SEMPRE um papel a desempenhar. Até na Economia.

 

As eleições estão aí e discutir ideias e princípios deveria nortear‑nos a todos. A democracia merecia mais que isto e não nos podemos cansar de lutar para que assim aconteça.

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