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Fernanda Rosa

23 de August, 2019

As nossas vizinhas pedreiras!

 “Construção de um negócio é saber fazer algo para se orgulhar, é criar algo que vai fazer uma diferença real na vida de outras pessoas”

 

Começo este artigo de opinião com uma frase de um empresário britânico bem conhecido que espelha bem a minha percepção sobre a importância e o modelo da actividade empresarial que defendo. O modelo tradicional da economia baseava-se apenas em ganhos imediatos mesmo que tal pudesse comprometer a sustentabilidade ambiental, os recursos materiais e energéticos, com recurso à exploração de mão de obra barata e desvalorizada.

 

O mundo, incluindo o empresarial, já terá entendido que o planeta não suporta uma exploração industrial, mercantil e financeira desenfreada e à custa de mão de obra menosprezada. Efectivamente, o crescimento económico não pode ser considerado princípio e fim em si mesmo. O desenvolvimento sustentável da economia tem de estar relacionado com a melhoria da qualidade de vida das comunidades, com as questões ambientais e com a própria vida como valor supremo. Infelizmente, as crises mundiais que todos conhecemos dificultam e adiam o debate e o compromisso ecológico mundial.

 

Depois do turismo, Fátima conhece bem a importância da exploração de rochas ornamentais para o desenvolvimento económico da região e do país. Em 2010, Portugal foi o oitavo país na produção de rochas ornamentais. A exploração do subsolo através de pedreiras tem proliferado na nossa freguesia, por vezes irregularmente, ocupando, por exemplo, serventias públicas, facto a que a actual junta de freguesia tem procurado corrigir procedendo à sua venda ao ocupante. Não menosprezando a importância deste sector para a nossa comunidade, empregando e beneficiando muitas famílias, parece-me que a discussão sobre a declaração de interesse público de algumas das pedreiras sediadas em Fátima implica uma reflexão mais cuidada que não se esgotará no interesse puramente económico. Ao fazermos uma digressão pela freguesia não é difícil de encontrarmos várias pedreiras já que parece que elas vêm ao nosso encontro, como vizinhas intrometidas, insaciáveis na sua curiosidade, às vezes barulhentas e poeirentas.

 

Nem sempre é pacífica a coexistência destas vizinhas pedreiras com os restantes moradores. Estes, entregues a si próprios, são compelidos, num esforço individual extenuante, a impor às vizinhas pedreiras os limites mínimos à boa e sã convivência. E pena é que seja a iniciativa individual a restringir o que os planos de ordenamento territorial se tem revelado incapazes de realizar. Por isso, a decisão de adiar a declaração de interesse público a algumas pedreiras da nossa freguesia foi sensata e inteligente por parte da Assembleia Municipal. Como refere o presidente João Moura, não se podem banalizar tais pedidos.

 

O factor económico não pode ser motivo único de declaração de interesse público. Há mais em causa, nomeadamente as questões ambientais e o impacto na qualidade de vida da comunidade local. Na digressão pela freguesia de Fátima que continuamos a fazer, por vezes apertam-se-nos as entranhas perante algumas paisagens deprimentes que se amontoam à nossa frente, qual vizinha desenfreada, desalinhada e despenteada.

 

Felizmente, nem todas as vizinhas apresentam esse aspecto humilhante ao visitante. Se a digressão nos fizer deslocar pela A1, sentido norte-sul, descubram ao vosso lado direito uma vizinha pedreira que se mostra aprumada e de aspecto arrumado, que me dispenso aqui de identificar, não vá o leitor inferir que estou comprometida. Mas, efectivamente quando ali passo, assevero que é possível ter uma pedreira como uma vizinha de que nos orgulhamos.

 

Acabo esta singela e despretensiosa reflexão como comecei. O empresário moderno é aquele que faz algo para se orgulhar, que cria algo que faz uma diferença real na vida de outras pessoas e, acrescento eu, convive sã, pacifica e sustentavelmente na sua comunidade.

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