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José Nuno Silva

22 de outubro, 2021

Esboço de uma tipologia da solidão - Reconhecer e aproximar‐se

Agora que a crise pandémica parece aliviar, há que reflectir sobre as lições que nos deixa. Uma se evidencia: o que percebemos sobre o fenómeno da solidão, que já era real, mas que agora se escancarou em toda a sua amplitude, agravada, diante dos nossos olhos ou na nossa própria vivência. De facto, a crise desvendou uma tipologia da solidão. A que aqui se esboça não esgota a realidade, mas pode ajudar a começar a pensar.

 

Em primeiro lugar, aquela mais óbvia e imediatamente perceptível, dos que vivem sós‐sozinhos, seja por opção, seja por fortuito acaso, seja por imposição das cir‐ cunstâncias. Pensemos, nomeadamente, nas vidas de tantos idosos entregues a si mesmos na solidão das suas casas de sempre. 

 

Depois, constatamos um sem fim de variantes da situação dos que vivem sós, ainda que acompanhados, conviventes com outros na casa familiar. São muitas as formulações desta realidade, como o prova o que tem vindo a ser dito sobre o crescimento das diversas formulações do fenómeno da violência doméstica, nomeadamente entre cônjuges ou nas relações entre os mais velhos e as gerações descendentes. O tipo de solidão dos sós‐acompanhados pode adquirir traços de particular sofrimento.

 

Podemos ainda identificar o tipo de solidão dos sós‐institucionalizados, nomeadamente, e de novo, os mais velhos, conviventes aleatórios em instituições como lares e residências de idosos, que, para não derraparem e estagnarem na condição de espaços de justaposição de solidões, exigem uma intencionalidade traduzida consequentemente em definição de estratégias de convivência e opções operativas que requerem muito investimento e, principalmente, consciência e vontade. Só o drama dos números de infecções e mortes exposto pela crise nestas instituições, que durante meses, cada dia, todos os dias, eram anunciados nos ecrãs que dominaram o nosso isolamento, nos fez tomar consciência das verdadeiras dimensões deste fenómeno. Porventura não sabíamos antes que existem tantas mega‐estruturas, onde tudo isto se torna mais difícil, porque mais difícil se torna o reconhecimento
da singularidade e unicidade pessoais e a criação de laços interpessoais, e maior se torna, por isso, o risco da normalização, da anonimização e da despersonalização – atrever‐me‐ia, mesmo, a propor um neologismo: a desbiografização dos anciãos (ancianidade, a palavra bela e profunda, entretanto esquecida, para dizer a velhice, quando o significado desta etapa da vida era reconhecido e valorizado).

 

A crise agravou de um modo particular, a situação de um outro tipo de solidão: a dos sós‐hospitalizados. A experiência do internamento hospitalar é sempre uma experiência de solidão e de confronto consigo mesmo e com a sua própria verdade. O internamento hospitalar, no contexto da crise pandémica, foi porventura aquele em que a experiência da solidão mais se agudizou, nomeadamente em razão das medidas de prevenção adoptadas pelos hospitais, a suspensão da presença dos voluntariados tal como a limitação da acção dos serviços de assistência espiritual e religiosa, além da sobrecarga de trabalho e o cansaço físico e emocional com que se confrontaram os profissionais de saúde. 

 

Uma especificidade dramática constitui e caracteriza especificamente a experiência de solidão que a crise impôs. A solidão impôs‐se como experiência total àqueles que com ela se viram confrontados, em qualquer das situações que antes tipificamos: trata‐se de uma experiência total, porque empurra para a solidão como modo de ser e forma de vida, experiência totalizante e totalitária vivida sob o signo do medo. Antes de mais, o medo do outro, mesmo dos pertencentes; depois, o medo do tempo, do presente e do futuro, que a saturação mediática encharcou de imagens terríveis e perturbadoras e de informações desencontradas e alarmistas; depois, o medo de adoecer também e o medo da morte e das circunstâncias em que para tantos ocorreu neste contexto, precisamente, na maior das solidões, sem direito a despedidas nem possibilidade das ritualidades do luto – talvez esta crise possibilite a recuperação da consciência da mortalidade e nos faça reflectir sobre o carácter desumano da sociedade pós‐ ‐mortal em que vínhamos vivendo.

 

A experiência da pandemia mostrou e, ao mostrar por experiência, ensinou. Será que aprendemos? Também interrogo. Será que responderemos? Trata‐se da urgência de inventar, ou aprofundar e desenvolver as já existentes estratégias de proximidade e cuidado, também de consolação, dos sós. É um desafio cultural e social para todos em cada comunidade humana.

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