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José Nuno Silva

11 de janeiro, 2019

Recuperar a mortalidade

Parecerá estranho optar por reflectir sobre a morte num primeiro contributo para um jornal local. Mas não o é, se assumir desde já como intenção desta colaboração chamar à luz da consciência lados da realidade esquecidos, escamoteados ou negados, consciente ou inconscientemente ignorados e subtraídos ao correr dos dias.

Entre estes lados esquecidos da realidade humana, ocupa um lugar fundamental precisamente a condição mortal do ser humano. Para esta situação contribuiu decisivamente um fenómeno que marcou as últimas décadas: em 1970 morreram em hospitais menos de 20% dos portugueses; em 2010, essa percentagem já se situa bem acima dos 60%; a par disso, atinge quase 10% a percentagem dos que morrem em outros espaços, diferentes do hospital ou da própria casa, nomeadamente residências de terceira idade.

O que resulta daqui é que o contacto com a experiência da morte, em gerações anteriores tão comum, se tornou raro, até inexistente para muitos durante boa parte da vida. O mundo ocidental vive uma situação civilizacional de pós-mortalidade. Pode parecer exagero, mas esta definição reúne o consenso de cada vez mais intérpretes do tempo que vivemos. É um processo sociocultural que elimina a morte, não apenas da experiência mas também da consciência das pessoas.

Tudo mudou no rosto da morte. Morre-se exilado das pertenças e, por isso, a morte não se vê; dela não se fala; nela não se pensa. Na sociedade do presente, vive-se como se se não morresse: o tempo esconde a morte, na miragem inglória de se esconder da morte. Morrer tornou-se um mero acidente biológico, falência bioquímica e fisiológica, esvaziado de mistério e despido de ritos: morrer torna-se meramente extinguir-se, o que retira pertinência à interrogação sobre a vida além da morte, um aspecto decisivo no desenho da condição pós-mortal. Numa sondagem em Setembro de 2016 foi perguntado aos portugueses: – Acredita que há vida para além da morte? 54,6% dos que responderam disseram que não.

Somos a primeira geração da história sem uma Ars moriendi, isto é, uma arte de morrer. Deixamos de saber como se morre e como se acompanha quem morre e como se está com quem chora os seus que morrem e como se integra na vida a morte e a saudade.Deixámos de fazer luto.

E perdemos as palavras de dizer diante da morte; mas tendo perdido as palavras, nunca tivemos tanta necessidade delas, porque se tornou insuportável o silêncio e precisamos delas para o mascarar ou nos mascararmos diante da morte com palavras que iludam a sua agressão. É! Chegámos à idade pós-mortal da história.

Para a Igreja, esta questão reveste-se de uma particular relevância. Se não sou consciente da minha morte, porque tenho necessidade de Cristo? Efectivamente, o lugar maior de reconhecimento real da importância de Jesus Cristo na minha vida é a consciência da minha mortalidade.

É a consciência pessoal da minha morte que me conduz à consciência da radical necessidade de Cristo na minha vida. O evangelho – a boa notícia – é a notícia da vitória de Cristo sobre a morte. Como, então, anunciar o evangelho em profundidade se a morte é cancelada da experiência e da consciência?

Aqui se desenha um desafio pastoral maior para a Igreja, nesta idade pós-mortal da história. Aliás, até já dizem a nossa época pós-humana. É isto que nos é pedido: recuperar a mortalidade para preservar a humanidade do homem e da sociedade humana. E para podermos comunicar Cristo, cujo fazer-se carne, isto é, homem mortal por estes dias celebramos.

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