Há momentos em que as urnas parecem contrariar o rumo que muitos julgavam inevitável. A reeleição de Lula da Silva no Brasil, a vitória dos democratas nas intercalares norte-americanas e a perda de uma maioria parlamentar pelo bloco de Benjamin Netanyahu, em Israel, permitem perguntar se estamos perante um novo ciclo político. A resposta exige prudência: países diferentes não votam pelas mesmas razões, nem uma mudança eleitoral constitui, por si só, uma garantia de melhor governação.
No Brasil, o Tribunal Superior Eleitoral anunciou a reeleição de Lula com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. A vitória é clara, mas a proximidade dos resultados mostra a responsabilidade de governar uma sociedade dividida. Ganhar eleições confere legitimidade; procurar o bem de todos dá sentido ao seu exercício.
Nos Estados Unidos, é notícia a conquista das duas câmaras do Congresso pelos democratas. O resultado altera o equilíbrio institucional e reforça a fiscalização da Administração Trump. Pode ler-se nele uma vontade de impor limites ao poder presidencial. Mas transformar o descontentamento em confiança exigirá respostas concretas aos problemas dos cidadãos.
Em Israel, o quadro é mais complexo. O bloco de Netanyahu obteve 53 dos 120 lugares, abaixo dos 61 necessários à maioria. O bloco rival reuniu 48 e os partidos árabes 19. Existe uma maioria de deputados fora do campo de Netanyahu, mas somar adversários não equivale a construir um governo. A possibilidade de mudança dependerá da capacidade de estabelecer compromissos entre forças distintas.
Estes sinais permitem interrogar se estamos perante o desgaste de uma política alimentada pela polarização. Não autorizam, porém, a proclamar uma vitória universal da paz. A Doutrina Social da Igreja não é um programa partidário, nem oferece um certificado de virtude aos vencedores. Propõe critérios pelos quais todos devem ser avaliados.
Na Pacem in terris, São João XXIII apresenta a verdade, a justiça, a caridade e a liberdade como fundamentos da paz. O Concílio Vaticano II, na Gaudium et spes, recorda que a paz ultrapassa a ausência de guerra e exige o respeito pela dignidade das pessoas e dos povos. Estes princípios obrigam a olhar para as consequências das decisões políticas, sobretudo na vida dos mais vulneráveis.
É aqui que uma cidade ucraniana introduz uma medida concreta de esperança. Em Oleshky, na região de Kherson, uma trégua humanitária permitiu fazer chegar auxílio e retirar civis. A Santa Sé confirmou que Leão XIV pediu uma pausa humanitária a Vladimir Putin e abordou com Volodymyr Zelensky a chegada de alimentos e cuidados de saúde, bem como a evacuação voluntária e segura da população. A Casa Branca documentou, por sua vez, a intervenção de Melania Trump na negociação do acordo local.
A operação concretizou-se. No dia 1 de novembro, o Papa manifestou a esperança de que esta colaboração favorecesse o diálogo e novas iniciativas de paz. Importa reconhecer o alcance e o limite do acontecimento: houve um resultado humanitário, não o fim da guerra nem um cessar-fogo geral entre a Rússia e a Ucrânia.
Este episódio impede também uma leitura fechada em simpatias partidárias. É possível reconhecer o significado político da vitória democrata e valorizar a ação humanitária da primeira-dama norte-americana. A coerência cristã exige reconhecer o bem realizado, venha de onde vier. Dialogar para salvar vidas não apaga a responsabilidade pela agressão, nem dispensa uma paz justa.
A verdadeira viragem começará quando o poder se traduzir em serviço, os adversários deixarem de ser tratados como inimigos e a diplomacia conseguir abrir caminhos onde as armas os fecharam.
As urnas contam votos. A paz exige que nenhuma vida deixe de contar.
Sérgio Carvalho