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Tomé Vieira

4 de junho, 2021

Vogando

Desde que presto atenção a este tema, sempre ouvi grandes encómios à capacidade de trabalho dos portugueses. São normalmente pessoas de enorme versatilidade e empenho, quando motivadas, que se dedicam com tenacidade e criatividade. Recordo com satisfação e orgulho o episódio singelo, mas significativo, da minha primeira consulta na Suíça. Quando nos apresentávamos, ao saber a minha nacionalidade, imediatamente o médico elogiou os seus congéneres portugueses, afirmando que Portugal tem excelentes profissionais.

 

Sobejam os exemplos de portugueses bem‑sucedidos por esse mundo fora, nas mais variadas áreas, desde os postos laborais mais simples até aos cargos de chefia e gestão, em pequenas, médias e grandes empresas. Ainda recentemente foi noticiado que António Horta‑Osório irá assumir a presidência do conselho de administração do Credit Suisse, o segundo maior banco helvético. A tarefa será árdua, pois será mandatado para reerguer este gigante financeiro, depois de perdas acumuladas impressionantes: só no último exercício, registou prejuízos de 4,4 mil milhões de francos, devido à implosão do ‘hedge fund’ Archegos e ao escândalo dos fundos ligados à sociedade Greensill, em processo de insolvência. Nada que o assuste sobremaneira, podemos inferir, pois o Lloyds Bank também estava em péssimo estado quando ele assumiu a sua gestão em 2011 e o transformou de banco intervencionado pelo estado britânico desde 2009 num activo para os contribuintes ingleses, devolvendo‑o aos exercícios positivos e, portanto, ao lucro.

 

Também o caso de Sílvia Nunes é paradigmático. Esta jovem enfermeira, que não conseguia emprego em Portugal, emigrou para Londres e rapidamente construiu uma carreira sólida em terras de Sua Majestade, vindo a ser inclusivamente premiada em 2019 como a melhor enfermeira de Inglaterra. 

 

Importa agora olhar para a realidade que me circunda, pois julgo só assim ficar melhor habilitado a confirmar a ideia inicialmente proposta. Desde que cheguei à Suíça, já colaborei com sete empresas, o que dá uma amostra simpática sobre a realidade laboral existente neste país. Algumas são mais pequenas, de índole familiar, outras de média dimensão e uma pertence a um dos maiores grupos empresariais suíços. Existe, porém, um denominador comum a todas elas, os portugueses estão entre os profissionais mais respeitados, ocupando inclusivamente cargos intermédios de chefia e até um de topo, no caso da maior empresa. Algumas dessas empresas são mesmo de portugueses que começaram como simples remunerados e mais tarde decidiram arriscar, tornando‑se eles próprios empreendedores de sucesso.

 

Todos estes exemplos me levam à reflexão que pretendo partilhar convosco, um enigma de difícil resolução. Se os portugueses que emigram se tornam normalmente profissionais de sucesso nos países que os acolhem, por que razão subsiste em Portugal o problema crónico de fraca produtividade? Por que razão persistimos em definhar economicamente, afastando‑nos cada vez mais dos índices médios de desenvolvimento económico‑financeiro dos nossos parceiros europeus? Por que razão insistimos em sobreviver de mão estendida perante a Europa, saltitando fatalmente de crise em crise?

 

Julgo que a resposta a estas questões é óbvia: em Portugal existem pessoas capazes, excepcionais mesmo, no entanto falta rigor e organização. Se aliarmos a isto más lideranças, principalmente a nível político, em que o compadrio, o nepotismo e a corrupção campeiam, temos as causas do Portugal eternamente adiado.

 

Talvez as novas gerações, mais instruídas e desempoeiradas, possam salvar‑nos um dia.

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