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Tomé Vieira

18 de fevereiro, 2022

Vogando...

Em 1996, o jornalista e escritor inglês Paul Hyland publicou Backwords out of the Big World – a Voyage into Portugal, que viria a ser editado em Portugal em 2000 com o título Por este Tejo a Cima. Logo no início o autor sintetizou o seu propósito: «Quero descobrir como é que Portugal – descobridor da maior parte do mundo, fundador do primeiro império moderno, e outrora o país mais rico da terra – se relaciona com o facto de já não ser grande.».

 

Reduzido à insignificância das minhas reflexões, também eu me interrogo permanentemente sobre as causas do já longo e triste declínio do nosso país. Provavelmente, esta obsessão deriva daquilo que Eduardo Lourenço identificou como hiperidentidade: sem grandes dúvidas sobre quem somos enquanto povo, olhamos permanentemente o destino, mas indecisos sobre que caminho tomar. Esta indecisão reveste-se muitas vezes de apatia, como o mesmo intelectual referiu. Não foi o único a debruçar-se sobre esta problemática no último século. Muitos outros pensadores, como Agostinho da Silva, ou mais recentemente José Gil e Miguel Real, têm dado igualmente importantes contributos.

 

Será que a nossa tradicional inclinação para a nostalgia, sublimada através da saudade e do fado de pendor fatalista, estará relacionada com esse atavismo? É legítimo aduzir o problema do sedentarismo como outro aspecto que nos diminui enquanto povo? Quando é que o medo pelo desconhecido se tornou de tal forma prevalecente que preferimos optar pelos ‘males menores’ em vez de ousarmos caminhos diferentes? A já ancestral tendência dos portugueses para a diáspora será uma forma de resistência dos mais insatisfeitos à segurança e ao comodismo daquilo que nos é mais familiar? As respostas a estas e outras questões similares poderão dar-nos pistas para que possamos ensaiar um novo rumo, mais inspirador e revigorante… Mas estaremos preparados para dar os passos necessários? Quero acreditar que sim, porém muita coisa terá de mudar.

 

Quando pensamos que temos a terceira maior dívida pública da Europa e uma das maiores cargas fiscais… Quando vemos o nosso desempenho económico a definhar ou em constante estagnação… Quando observamos que nas últimas décadas temos sobrevivido, de crise em crise, devido à triste condição de pedintes internacionais, permanentemente desesperados por mais uma ‘bazuca’… Quando sabemos que temos o maior índice de iliteracia financeira do mundo ocidental… Quando verificamos que temos um dos piores índices de natalidade do mundo… Quando vemos os jovens a sair cada vez mais tarde de casa dos pais, muito mais tarde do que os congéneres europeus… Quando reflectimos sobre tudo isto, deveríamos unir-nos na busca de soluções em vez de discutirmos como inimigos.

 

Temos de momento os jovens com a melhor formação de sempre, facto que me traz algum optimismo quanto ao futuro, mas julgo que serão necessárias mais uma ou duas gerações para que possamos ultrapassar parte destes problemas. Faltam referências sólidas entre as elites actuais que possam inspirá-los. Além disso, o ataque complexado que está em voga fazer às referências históricas não ajuda ao panorama. Só quando ultrapassarmos estes e outros obstáculos poderemos aspirar a uma verdadeira mudança de paradigma, de que tanto precisamos.

 

Por coincidência, esta semana fui contactado por uma das alunas mais brilhantes que tive. Como sabia da minha actual condição de emigrante, enviou-me uma mensagem muito simpática onde indagava sobre a minha experiência e sobre as condições que a Suíça pode oferecer a um(a) jovem estrangeiro(a) que pretenda aventurar-se. Tenho muita pena por ver Portugal perder jovens com formação superior de excelência e extremamente criativos, mas se o país não lhes consegue dar condições para concretizarem todo o seu potencial também não é justo impedir que procurem novas paragens onde possam concretizar os seus sonhos.

 

Considero que um dos maiores problemas que o país atravessa reside precisamente naquele sedentarismo cómodo que retém os jovens em casa dos pais até tão tarde, no imobilismo subsídio-dependente que acomoda as pessoas à pobreza, nesta economia inconsequente demasiado dependente dos negócios à boleia estatal, no atavismo receoso que prefere legitimar fórmulas políticas que nos últimos anos apenas nos trouxeram estagnação e mediocridade.

 

Portugal só se reerguerá de novo quando enfrentar corajosamente estes obstáculos e se relembrar que só foi grande, gigante mesmo, quando arriscou e se aventurou, olhando os perigos como oportunidades e o horizonte como destino.

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