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Helena Barroso

5 de novembro, 2026

Vergonha de envelhecer

 Esta noite foi difícil. De fralda, senti que me sujei e, para não incomodar ninguém, esperei. Mais valia tê-lo feito, pois agora dizem que a minha pele ficou macerada e vou ter de ter outros cuidados.

Jovens, estas colaboradoras que, por mais afeto que mostrem, não sabem a vergonha que sinto, de estar suja, de cheirar mal, de depender, de envelhecer.

Acho que nunca fui uma mulher muito bonita, mas sempre gostei de me arranjar e estar limpa. Agora o corpo transformou-se, menos firmeza, o cabelo branco, seios descaídos, braços flácidos e uma incapacidade crescente que me torna frágil.

Às vezes já não sei se é vergonha ou medo o que sinto pelas limitações. Vergonha de depender, mas medo que as minhas necessidades não sejam atendidas, porque também sei que o meu feitio impõe urgência e sei que aqui não sou só eu, a Rosa, mas somos muitos.

Fralda de noite, mas a minha cueca de dia, por vezes e sem o sentir perco urina e um sentimento de constrangimento apodera-se de mim. Sei que aqui estou porque sozinha não posso estar, mas o sentir que a minha privacidade é invadida quando me limpam dói.

Os lares existem porque nós existimos, mas não deixo de me sentir um fardo.

Olho para alguns companheiros de casa e como são felizes os dementes. Sorriem e riem de tudo e todos como se o seu mundo fosse um conto de fadas cheio de felicidade.

Não perdi a audição.

Não perdi o juízo.

Não perdi o discernimento.

Não perdi a capacidade de querer dignidade neste envelhecer.

A sociedade valoriza a juventude, o dinamismo, a energia, mas olha para nós como se fôssemos um peso, eu sei e sinto.

Depois de limpa e creme aplicado, com o aviso que, se voltar a acontecer, tenho de avisar, nada digo, pois a vergonha permanece no cheiro que ainda sinto e nos olhares que vi de quem me limpou.

Nos programas de TV que passam a tarde, muitos falam sobre menopausa, envelhecer, a beleza na terceira idade. Histórias e histórias dramáticas e que as transformam em finais felizes. E todos, sem outra atividade para fazer ou poder fazer, ali estamos a assistir, em que alguns ouvem e outros fingem ouvir. Uns dormem, outros falam e ainda outros mandam calar porque querem ouvir. Há vontades para todos os gostos.

Às vezes durmo um pouco, mas confesso que outras vezes finjo dormir. Porque não me interessa o que dizem ou porque quero somente recordar o que há tantos anos me fez feliz ou mesmo tentar ouvir o vento lá fora que tanta liberdade tem.

Não tenho medo de envelhecer ou mesmo de morrer. Afinal, o que me prende aqui? Para que sirvo eu? Dormir, ser lavada, ser vestida, comer, ser deslocada na minha cadeira de rodas, ser olhada como mais uma, ser alertada para isto ou aquilo que faz parte da rotina deste local... que mais?

Há tempos, a Médica do Lar falou com Leninha sobre a possibilidade de eu estar depressiva. Ela falou comigo e quis saber o que se passava.

O que se passa?

Nada que todos não saibam, esta vidinha de quem sente que nunca mais sai deste local, exceto quando morrer e aí já nada sente, deseja, teme ou se envergonha!

O que resta? O sabor da comida, a roupa mais ajeitada e colorida que nos é vestida, o sabor do bolo de aniversário quando alguém faz anos, o sorriso de quem nos visita.

Digo-lhe que está tudo bem e que nada a deve preocupar.

A minha saúde mental, como hoje dizem, está tão bem que até isso incomoda, pois, se assim não estivesse, pouco me preocuparia.

Acho que nós, os idosos, vivemos no meio de uma luta entre a sabedoria de uma vida e o desafio da solidão, do medo e da vergonha. Tudo isto numa mistura de sofrimento pela perda dos que se foram, dos que estão e não vêm. É isso que sinto!

Algumas colaboradoras olham para mim e sorriem e eu sei que sabem que o meu raciocínio está intacto, pelo que, por vezes, trocam olhares comigo de compreensão em diversas situações. Isso faz-me sentir bem, como se entre tantos eu ainda fosse das melhores, das mais capazes.

Não estou depressiva.

Estou pensativa.

Estou sem propósito de vida.

Sorte tem o vento que não envelhece!

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