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José Poças

5 de novembro, 2026

A bicicleta do meu pai

 O meu pai, quando acabou a escola primária, foi trabalhar na fazenda (como então se dizia) dos pais. Com a ambição de uma vida melhor, todos os dias de semana, à tarde, fazia o trajeto do Reguengo do Fétal até Leiria (15 Km), de bicicleta, quer chovesse, quer fizesse sol, para frequentar as aulas na Escola Industrial. Durante 3 anos, regressava a casa já de noite.

Não pretendo, com isto, romantizar o passado. Seria absurdo desejar aos nossos filhos os obstáculos que os nossos pais tiveram de vencer. O progresso serve precisamente para que cada geração possa viver melhor do que a anterior. Mas há uma diferença entre querer ter uma vida melhor e acreditar que essa mesma vida pode ser exigida sem esforço, conquistada sem responsabilidade ou garantida pela simples invocação de um direito.

Seria absurdo exigir aos jovens que trabalhassem primeiro para só depois lhes reconhecer o direito de reclamar. Mas também é errado transformar uma dificuldade real num argumento que dispensa o confronto com a realidade, confundindo o direito de exigir políticas públicas com o direito de determinar unilateralmente quem deve pagar a fatura. Quando a convicção de estar do lado certo dispensa o respeito pelas regras, o que se apresenta como combate à intolerância corre o risco de se tornar apenas uma intolerância com outra bandeira. E quando, em nome dessas reivindicações, se chega à destruição de bens patrimoniais ou à hostilidade à polícia, a contradição torna-se ainda mais evidente. A justiça não se constrói destruindo, a igualdade não se alcança pela intimidação ou pelo confronto. Nem pela radicalização ideológica, ligada a bandeiras palestinianas, que nada têm a ver com a falta de casas.

O meu pai não tinha menos direitos do que os jovens de hoje. Tinha, isso sim, menos possibilidades de os ver concretizados. E talvez por isso tenha aprendido, como tantos homens e mulheres da sua geração, que entre aquilo que desejamos e aquilo que conseguimos existe, muitas vezes, uma distância que só o trabalho, a persistência e a capacidade de suportar dificuldades nos permitem percorrer.

Quando ouço os jovens reivindicarem o direito à habitação, compreendo a sua angústia. Também passei por ela. Demorei mais de 30 anos a pagar a minha casa. Sei que, hoje em dia, os preços são demasiado elevados e os salários quase nunca acompanham o custo de vida. Sei também que as políticas dos principais partidos só têm agravado esta situação. Sei também que a independência económica se tornou difícil para grande parte dos jovens (e menos jovens). Não lhes nego, por isso, a razão por reivindicarem. Pergunto-me, porém, se não estaremos a perder qualquer coisa de essencial quando o discurso dos direitos se emancipa completamente do discurso das responsabilidades; quando se exige ao governo que resolva todos os problemas, mas pouco se fala de trabalho, da criação de riqueza e dos compromissos que qualquer solução duradoura necessariamente implica.

O paradoxo torna-se ainda mais evidente quando, em nome da justiça social, se desvaloriza o esforço de quem trabalhou durante décadas para adquirir uma casa, poupar ou construir um património. Defender quem não consegue comprar ou arrendar habitação, não exige hostilizar quem conseguiu fazê-lo.

Talvez a diferença entre gerações não esteja tanto na coragem de uns ou na fragilidade de outros, mas na maneira como cada época nos ensina a olhar para as dificuldades. O meu pai sabia que a bicicleta não encurtava a estrada: permitia-lhe percorrê-la, muitas vezes “contra o vento”. Não eliminava o esforço, tornava-o possível. E há uma lição nessa imagem que continua a ser válida: nem todos partimos do mesmo lugar, nem todos dispomos das mesmas oportunidades, mas nenhuma sociedade pode prometer um futuro melhor se deixar de valorizar o esforço necessário para o construir.

Hoje em dia, talvez a nossa maior responsabilidade seja construir melhores estradas, garantindo que os jovens não tenham de pedalar tanto para construir o seu futuro. Mas sem que nunca deixem de compreender que nenhum futuro se constrói apenas à força de o exigir.O meu pai pedalava para tentar chegar ao futuro que ambicionava. Infelizmente, alguns parecem acreditar que basta exigir direitos, que lhes seja dada uma bicicleta elétrica, para não terem de se esforçar a pedalar.

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