Em 9 de Junho de 1928, o presidente da Câmara de Vila Nova de Ourém, José da Silva Lopes, escrevia ao Governador Civil de Santarém, solicitando “que esta região seja considerada zona de turismo e como tal classificada.”
A sustentação deste pedido é curiosa, já que começa por dizer que “não é só porque esta região é passagem obrigatória para a visita dos três monumentos Nacionaes Tomar, Batalha e Alcobaça” para, em seguida, referir que a verdadeira razão era “Fátima ficar situada n´este concelho, e, necessariamente será em futuro uma estancia de turismo mais importante do País.” Pedia-se pois a intervenção do representante do Governo no distrito para convencer o Ministro do Interior “a deferir este pedido”.
Passados apenas 3 anos, o novo presidente da Câmara, Júlio Ribeiro da Silveira Lopes, escrevia aoChefe da Repartição de Turismo no Ministério do Interior, a 27 de Agosto, salientando que em relação ao turismo, em Vila Nova de Ourém «objectos manipulados que possam servir de “lembranças” não há, cuja falta é suprida com postaes ilustrados com vistas da terra. (…) De bolos e doces não existem fábricas da especialidade todavia sempre aparecem à venda vindos de fóra». Refere ainda que deve recomendar-se aos turistas “a visita a Ourém Velho, para ver os castelos mouriscos, (…) a antiga Sé real onde existe o túmulo do Marquês de Valença e conde de Ourém e ainda o lindo panorama que se desfruta d´aquele ponto elevado. Vale também a pena visitar o Santuário de Fátima, situado na Cova da Iria, não só para quem tiver essa devoção, adorar N.ª S.ª do Rosário, como para conhecer de perto os muitos milagres que ela tem feito e os muitos melhoramentos que ali se teem feito para a todo o tempo, aquele Santuário se poder chamar a “Lourdes Portuguesa” servida de bons Hotéis e pelo caminho de ferro ou eléctrico de Tomar à Nasaré que infelizmente ainda está por construir.”
“Quando em meados do século XX se tornou necessário recordar a que município pertencia, Fátima já tinha ganho dimensão, nome e projeção próprias”
Para promover o turismo no concelho, “passeios e excursões podem faser-se em viaturas automóveis d´aluguer, da estação de Chão de Maçãs a Ourém Velho (percurso 10 K) e de Ourém Velho à Cova da Iria (percurso de 7,6 k) e quanto a preços pedem 50$00 por um automóvel de Chão de Maçãs à Cova da Iria sem demora, havendo demora pedem mais 5$00 por cada hora, mas presentemente estes preços tendem a baixar por haver muitos carros.”
Em 16 de Novembro de 1940, o então presidente da Câmara, Joaquim Vieira Justo, informava o Governador Civil do Distrito que, na sessão do dia 12 desse mesmo mês tinha sido nomeada a Comissão de Turismo concelhia, assim constituída: “Presidente- José de Sousa Dias, como Delegado do Conselho Nacional de Turismo; Vogais – Dr. Carlos Vaz de Faria e Almeida, como representante da Câmara e Dr. António Justiniano da Luz Preto, como Delegado de Saúde.” Mais acrescentava que “desta Comissão não faz parte nenhum engenheiro ou arquitecto por não existir, nêste concelho, pessoa com essas habilitações especiais.”
Mas como não há bela sem senão, nesta história do turismo, surgem reclamações contra publicações regionais e nacionais. A título meramente ilustrativo veja-se o que escreveu, a 30 de Abril de 1954, o Presidente da Câmara, Dr. Acácio Paiva, em carta enviada ao Director da “Vida Ribatejana”, de Vila Franca de Xira:
“O ano passado o número da revista da “Vida Ribatejana” limitou as suas referências a Fátima, sem colocar este importante centro espiritual dentro do concelho de Vila Nova de Ourém. Estará V. Ex.ª disposto, no corrente ano, a tratar o assunto sem esquecer, portanto, que Fátima é parte integrante deste Município?”
Vinte e seis anos depois do primeiro pedido para que o concelho fosse reconhecido como zona de turismo, o presidente da Câmara tinha de escrever a uma revista para recordar que Fátima era parte integrante do Município da então Vila Nova de Ourém.
E talvez seja esse o pormenor mais revelador desta crónica: quando em meados do século XX se tornou necessário recordar a que município pertencia, Fátima já tinha ganho dimensão, nome e projeção próprias, muito para além da escala administrativa a que (ainda) pertence. O seu nome já tinha atravessado fronteiras, conquistado uma dimensão internacional e alcançado uma importância mundial que nenhum limite administrativo consegue verdadeiramente conter.